Lembo, Limbo e Elites brancas

Quem leu a entrevista do governador Cláudio Lembo à Folha e teve o cuidado de perceber o texto oculto do seu desabafo, vai chegar à conclusão de que ele é o retrato de um homem amargurado pela solidão do poder, experimentando um limbo ao qual poucos sobrevivem. Aliás, ele afirma isso categoricamente em uma curta resposta, mas a espalha sutilmente pelo resto da conversa.
Alçado ao governo do estado por conta da candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência, Lembo teve o presente de grego que ninguém deseja. Literalmente foi investido da função de almoxarifar o estado até que o novo governador receba de suas mãos a chefia do Palácio dos Bandeirantes. E nesta função, foi abandonado por seus aliados, inclusive os de seu próprio partido. Estão de olho sim em outro Palácio e com outras prioridades.
O desabafo do governador traz consigo talvez uma das frases que mais vão incomodar seus aliados durante a campanha eleitoral. A de que a elite branca é a grande responsável pelo que anda acontecendo no País. Se ouvíssemos essa frase da boca de um militante do PSTU, ou do PSOL ou de outras agremiações mais à esquerda, talvez ela não tivesse o efeito que teve. Mas dita por um representante de um partido reconhecidamente identificado com as elites, ela assume outra conotação: a de que Cláudio Lembo chegou ao limite da compreensão da fenomenologia social brasileira.
É verdade sim que a elite branca do Brasil tem inteira responsabilidade pela configuração do conflito social que hoje vemos. No país da Daslu, de Caras, dos domingos televisivos que bestializam a inteligência de nossa gente, é difícil não se aceitar que a miséria e a exploração não tenham responsáveis, como se fora construida unicamente por uma seleção natural.
A crítica do governador foi ácida e emotiva. E verdadeira porque quando nos encontramos em situações limites, o inconsciente aflora com toda força, sem rodeios e sem censura. A solidão do poder mostra o quanto ele é ilusório e insuficiente para acalmar a consciência.
Agora seus aliados vão querer silenciá-lo, cercá-lo de mimos para evitar que ele estrague a cena. Em uma abordagem simbólica da fala do governador, percebemos que ele agiu como a bruxa do mito de Parsifal: expôs sem nenhuma máscara a verdade que é escondida pelas conveniências.
Com certeza ele vai ser cobrado por esse "ato falho". Sofrerá o "limbo" no qual seus aliados vão colocá-lo, torcendo para que o calendário corra o mais rápido possível. O problema é se o calendário correndo rápido vai dar para se alcançar o que desejam. As dondocas e os bebedores de conhaque Henessy é que precisam experimentar um limbo ético que os acordem de vez, porque o pesadelo apenas começou. Nada contra a boa bebida e boa comida, mas seria melhor que viessem acompanhados de um senso de solidariedade com os excluidos desse Brasil.

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