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Nacionalismo de Ocasião

A subida de tom nas diversas falas que estão interagindo no caso da nacionalização do gás, parece estar criando um clima de guerra fria entre o Brasil e a Bolívia. Evidentemente que as falas representam distintos interesses, cada qual com seu ponto de vista voltado para o próprio umbigo.
Por um lado, o Governo Morales exerceu legitima autonomia de um Estado soberano que tem o direito de tratar como entende melhor a gerência de recursos naturais sob sua jurisdição política. E o fez de olho no processo constituinte que se avizinha e no qual pretende reconstruir as bases do Estado boliviano. A prova disso é que a medida conta com apoio da grande maioria dos seus eleitores, aliás mais do que dos seus eleitores, pois alcança cerca de 70%, em média, contra os 54% que nele votaram.
Por outro lado, o Governo brasleiro, que adotou desde logo uma postura conciliatória, fiel à sua história de conciliação e diálogo como método de enfrentamento de divergências diplomáticas. A questão em foco, por sua natureza econômica, envolve também uma empresa brasileira, de capital público e privado, que necessariamente não pode ser alçada à condição de representante institucional do Estado brasileiro. Ou seja, o foco da questão, embora envolva interesses brasileiros, é econômico e não de soberania nacional. Em nenhum momento, a soberania brasileira está sendo ameaçada em sua integralidade. Está posto sim uma situação de conflito de interesses econômicos que precisam ser manejados à luz das regras comerciais entre as partes.
No meio desses dois atores, se situa a classe política brasileira. Nesse território tão heterogêneo políticamente é perceptível a insatisfação da oposição que, de repente se escuda em um nacionalismo oportunista. E digo oportunista porque pelo perfil de seus quadros, não teve a mesma veemência quando do processo de venda dos ativos de muitas estatais há pouco tempo atrás.
O objetivo estratégico de alguns segmentos políticos brasileiros é criar uma nuvem de fumaça para deslocar o foco das atenções da opinião pública com relação ao novo escândalo que se abate sobre os congressistas. Aliás, postura pouco nacionalista é desviar recursos do Estado para fins privados. E isso tem sido uma prática corriqueira de alguns próceres da política nacional.
A sociedade brasileira não pode ser manipulada por um falso nacionalismo de ocasião. O conflito que estão querendo pintar não é entre o Estado brasileiro e o Estado boliviano. É um conflito de interesses entre uma empresa brasileira e o Estado Boliviano. E para isso existe a possibilidade de negociação, de acordo comercial, onde se preserve os interesses de cada uma das partes. Em não havendo congruência, nem acordo, existem as instâncias jurídicas para tal.
É um teste - como eu já disse anteriormente - não somente para a diplomacia brasileira, mas igualmente para a classe política, que precisa amadurecer na percepção do que é soberania nacional e interesse comercial. Esses mesmos políticos que se arroubam em defensores da nacionalidade foram os que acabaram com a cláusula constitucional que reservava à Petrobrás a exclusividade da exploração de nossas riquezas petrolíferas. E isso não faz muito tempo.

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