Mensagem de Quaresma do Bispo Primaz



“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. (Am 5.24)

Irmãos e irmãs

Estamos iniciando a Quaresma que nos chama a assumir as implicações do caminho de Jesus no deserto e também o seu caminho rumo a Jerusalém. Neste caminho, Ele nos convida a assumirmos o papel de seguidores do seu movimento, comprometidos com uma sociedade justa, baseada no respeito à natureza, ao nosso próximo e a nós mesmos, conforme o propósito de Deus.
Portanto, um período especial de reflexão, oração e busca de maturidade na fé. 
Este ano, nossa IEAB está engajada na Campanha da Fraternidade Ecumênica que reúne as Igrejas do CONIC e o tema para este ano é Casa Comum: nossa Responsabilidade. Este tema é recorrente não somente na Comunhão Anglicana, mas igualmente no Conselho Mundial de Igrejas, na família Ortodoxa e mesmo em outras religiões. A sociedade está cada vez mais preocupada com os rumos da civilização em termos da sustentabilidade da vida.
Cuidar da natureza e ter atitudes proativas no cuidado com o meio ambiente é parte essencial de nosso testemunho como anglicanos. E isto deve acontecer como pessoas e também como comunidades, dioceses e Província.
Enfrentar o descaso com o meio ambiente também exige firmeza cidadã e cobrança dos gestores públicos na aplicação de recursos que venham melhorar a qualidade de vida de nosso povo. Significa priorizar o bem estar de toda a sociedade ao invés de fortalecer ainda mais a cultura do lucro pelo lucro. 
Tomando o exemplo da disseminação preocupante do Zica vírus e da Chikungunya, percebemos que a causa fundamental do problema reside exatamente na ausência de políticas de saneamento básico e tratamento de resíduos acumulado, sem descartar a forma irresponsável com que tem sido tratados as nascentes e cursos de rios. 
Tudo isso pode ser superado com educação do povo e políticas públicas de preservação do meio ambiente.
A Rede Anglicana de Meio Ambiente disponibilizou uma proposta de jejum pelo meio ambiente que pode ser aplicada individualmente e em nossa comunidades. São 40 ações para serem realizadas durante esta quaresma e que recomendo que possam ser assumidas por toda a Igreja. Passos simples, gestos simples, que implicam em redução da emissão de carbono, uma das causas essenciais para o agravamento dos câmbios climáticos. Portanto, não faltam recursos para assumirmos um concreto compromisso de conversão de nossas práticas, de conscientização de nosso testemunho como cuidadores da criação de Deus.
Não estamos sozinhos. Nossos irmão de caminhada ecumênica estão fazendo isto também. Nossos irmãos de outras religiões também estão assumindo o compromisso de cuidar da nossa Casa Comum. 
Anexo à esta mensagem envio o roteiro do Jejum pela Natureza, com sugestões bem práticas para que seja assumido pela nossa Igreja e que os materiais da Campanha da Fraternidade Ecumênica sejam seriamente estudados em nossas comunidades locais. 
Uma abençoada Quaresma a todos e todas!
++Francisco

Message from Primate of Brazil about Primate`s Decision on the recent meeting in Canterbury

Brothers and sisters,

As I expressed earlier, I did not want to communicate anything prior to the end of the meeting regarding the heat of the debates that followed the discussion taken by the majority of Primates in relation to the Episcopal Church of the United States (TEC). In other words, the temporary suspension for three years from all decision-making entities of the Communion, rooted in [TEC]’s decisions with respect to the Matrimonial Canon.


Today I arrived in Brazil and would like to share a pastoral word with the Church regarding this matter. This issue took up a disproportionate amount of time from the meeting and was very difficult for all of the Primates. The most extreme position of the GAFCON primates was to demand an apology or require the withdrawal from the Communion of both TEC and the Church of Canada. This position caused a reaction that brought the Primates into the center of the debate, and the more progressive members sought alternatives that might have caused a drastic break in the Communion, along the lines of what the secular media had repeatedly predicted before and during the meeting. The final resolution what I call positive in terms of keeping the Primates at the table and with the desire to continue conversations on the emblematic grounds of sexuality. In the decision that was taken, the Church of Canada was not included, as there has not yet been a definitive decision taken at the sinodal level regarding a matrimonial liturgy for same-sex couples.


The impact of this decision certainly impacts and causes pain, not only in TEC, but in all churches who have answered the call of God to welcome all persons in pastoral need. As Bishop Michael Curry stated, TEC is responding to a pastoral need, that is not just a cultural issue, with a concrete response to people who love God, serve Him, and desire ardently to follow Jesus.

Our IEAB (Episcopal Anglican Church of Brazil), as well as other provinces in the Communion, has committed to a path of inclusion and community with LGBT persons, and depending on the decisions made in the next two or three years, we could live through situations that are similar to what TEC is currently experiencing.

There is no doubt that the Communion is experiencing and deepening its division. The question that emerges is how we will live together with this division. Perhaps the easiest road is to avoid the cost of living with difference. It’s not the first time that TEC has had this experience.  But TEC has stayed firm in the resolution to participate and contribute to the Communion. TEC is not alone and we are together on the road of mission. One thing however needs to be stated. The secular and religious media seems not to have observed the final communiqué of the Primates’ Meeting in which declares condemnation of the churches that refuse (for testimonial fragility) to firmly condemn the attitudes and laws that insist on propagating homophobia and the criminalization of LGBT people. 

The Primates also affirmatively committed to the Sustainable Development objectives, to the cause of refugees, to the cause of people victimized by human trafficking, and to the defense of victims of sexual violence. And I regret that we did not spend more time discussing what, in my view, is really relevant to our testimony as the Church of Christ.

All the above is stated without speaking of the climate of prayer that we experienced intensely during the meeting, with the participation in the daily offices, in the Eucharist, in the moments of silence and fasting we experienced in the Cathedral crypt, and the veneration of symbols such as the Holy Gospels of St. Augustine and the staff of St. Gregory, the pope who sent Augustine to evangelize the British Isles. For the first time in nearly 1500 years these two holy objects were together in the same place!

We need to have the courage to recognize that our Communion continues divided. The decision of the Primates needs to be scrutinized by the Anglican Consultative Council, as this is the only legislative body entitled to decide on membership issues within the Communion.

I will be convening a meeting of the House of Bishops [of the IEAB] to discuss this matter, in which we will compose a message of solidarity with TEC, and we will send this word out to the Communion.

May God enable us to hear his call and make Jesus known and loved by all persons, regardless of their personal condition. May orthodoxy (professed by some) not become an impediment to the advancement of the Reign of God.

From Your Primate.


++ Francisco

Episcopal Anglican Church of Brazil

MENSAGEM DE ANO NOVO DO PRIMAZ

Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares. Josué 1:9



Irmãos e irmãs,


Paz seja com vocês!

O Senhor coloca à nossa frente mais um ano novo para continuarmos a fazer a história que Ele espera que façamos. Estamos vivendo tempos de enormes desafios - que sempre existiram diante de nós - mas que na atual conjuntura exige que tenhamos motivação redobrada. Nosso país precisa trilhar um caminho de ajustes que vão além das dificuldades econômicas que exigirão disciplina e seriedade governamental no seu enfrentamento. 

A crise política precisa dar lugar a uma democracia forte em que os interesses do povo brasileiro sejam colocados acima de quaisquer outros interesses eleitorais. A crise ética de gestão da coisa pública precisa dar lugar à transparência e ao cumprimento estrito da lei. O povo brasileiro precisa retomar o controle social das instituições que o representam. A era de privilégios deve dar lugar à justiça afirmativa, voltada para o bem comum de todas as pessoas cidadãs. 

Como Igreja, devemos assumir a nossa responsabilidade de viver a nossa fé dentro e fora de nossos templos. Para dentro, devemos aperfeiçoar os nossos instrumentos de evangelização, de anuncio da Boa Nova de Jesus Cristo. Alimentar com substância teológica e pastoral o nosso povo. Fortalecer e afirmar o testemunho de nossos jovens. Garantir o protagonismo das mulheres. Ampliar a consciência de nossa responsabilidade social e política. Orar e agir, sempre impelidos pelo amor e pelo compromisso com a verdade. Tornarmo-nos críticos diante das propostas aventureiras (religiosas ou políticas) que tentam capturar a consciência de nosso povo. 

Não podemos aceitar discursos e práticas que lesem os direitos de nossa gente mais pobre. Por ser um ano de eleições municipais, devemos nos preparar para rechaçar discursos eleitoreiros de quem não está seriamente capacitado a defender os interesses da sociedade brasileira.

Nossa diaconia deve ser ampliada com qualificação de nossos quadros. Corajosamente vamos estudar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e descobrir nossa potencialidade de assumirmos o compromisso da transformação da qualidade de vida de nossa sociedade.

Teremos um Sínodo Extraordinário que vai oferecer à Igreja uma Constituição e Cânones que nos tornem mais efetivos na vida e comunhão entre nós mesmos e nas nossas relações ecumênicas e sociais. A Câmara dos Bispos está desafiada a cumprir o seu papel de liderança pastoral em espirito de unidade e compromisso com o nosso rebanho. O Conselho Executivo é chamado a conduzir administrativamente a Igreja dentro dos princípios que nos distinguam efetivamente como uma Igreja que serve. Cada clérig@ é desafiado a testemunhar e orientar os fiéis sob sua liderança com fundamento na herança dos apóstolos a apóstolas de Jesus. 

Precisamos experimentar uma vida de estudo e oração, sem as quais podemos correr o risco de apenas “tocar mais um  ano pra frente”. Que Deus derrame sobre a IEAB os dons do Espírito, fazendo-nos humildes servos uns dos outros e de nossa sociedade brasileira. Que Ele nos dê a paciência para nos manter firmes no caminho de Jesus. Um abençoado 2016 para nossa Igreja e nos ajude a construir uma Igreja corajosa, evangelizadora e amorosa, a começar por nós mesmos!


Do vosso Primaz,

MENSAGEM DE ADVENTO DO BISPO PRIMAZ






Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus.
Salmos 42:1


Estamos vivendo a estação do Advento em meio ao caos, especialmente em nosso país diante da mais grave crise social e política desde o processo de redemocratização. Nesta crise percebemos tensões cada vez maiores, vemos pessoas com o único objetivo de poder pelo poder, atropelando regras do Estado de Direito apenas para o alcance de seus projetos pessoais mesmo que inteiramente cobertos de lama moral.

Há poucos dias, cinco jovens negros foram executados friamente no Rio de Janeiro revelando a crueldade do racismo institucionalizado que condena inapelavelmente as pessoas pela sua cor dentro de uma lógica nefasta completamente contrária aos valores do Evangelho. 

O desastre ecológico em Minas Gerais completou um mês. Nele, constatamos que a vida não é preocupação daqueles que só encaram o lucro com fim último, cegos e insensíveis à dignidade das pessoas. O afã do lucro vai destruindo a vida e o ambiente no rastro da contaminação de resíduos minerais. 

Normalmente quando nos defrontamos com a dura realidade que nos desafia na vivência de  nossa fé costumamos nos sentir enfraquecidos por tantos sinais de destruição dos nossos sonhos de uma sociedade que expresse os valores do Reino de Deus. Elevamos os olhos e perguntamos: até quando Senhor?

Mas Deus nos assegura que não estamos sozinhos e que nossa luta não é inglória.  Que Ele nos conceda a firmeza necessária para continuar a sonhar com a Parousia e nos fazermos anunciadores do seu Reino. Enquanto houver no mundo pessoas comprometidas com os valores da verdade, da justiça, da solidariedade e com um outro mundo possível, teremos razão para acreditar e seguir em frente!

Cada vez mais somos desafiados a erguer as nossas preces a Deus, a estar perto d`Ele, a pedir por misericórdia pela nossa sociedade tão alienada do seu projeto de vida. O Advento é tempo de lembrar que o Reino de Deus está às portas e que somos seus arautos. Não podemos nos abater. E mesmo que os sinais contemporâneos apontem o contrário, devemos permanecer firmes, leais e vigilantes. 

Deixemos o amor de Deus arder em nosso coração! E ansiar, como a corça, por águas que refresquem nossa vida e reguem os nossos sonhos!

++Francisco

Vocação: somos todos chamados

Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda. Jo 15,16

Um dos temas mais complexos, mas igualmente essencial para vida do povo de Deus, é a compreensão do que seja vocação. A primeira coisa que vem à mente das pessoas é logo pensar em chamado para a vida religiosa através do ministério ordenado. Mas isso não é essencialmente verdadeiro. 

Primeiramente Deus é um ser relacional que deseja sempre ter intimidade conosco. Ele nos chama até mesmo antes da nossa consciência pessoal. Lembremos de Jeremias (1,4). Ao longo de toda a nossa vida, Deus continua insistentemente nos chamando: o Batismo é, por assim dizer, a nossa iniciação na fé e nos marca para sempre como filhos e filhas. Temos uma marca indelével de propriedade sagrada e amada por Deus. Independentemente do contexto em que estamos, somos pessoas especiais, chamadas a viver uma vida qualitativamente diferente. 

E assim vamos crescendo na fé e no conhecimento das coisas, da vida e de nós mesmos. O ambiente da comunidade eclesial nos oferece a constante disponibilidade de Deus, através dos sacramentos e do aprendizado de seu projeto de vida para cada um de nós. 

Vamos nos embrenhando pela vida, pelo conhecimento, pelos dons que vamos descobrindo no processo de auto-consciência e chegamos ao ponto de identificar o nosso jeito de nos sentirmos úteis, apaixonados pela vida e harmonizados. 

Mas será que é só isso que Deus deseja de nós? Certamente que não. É aí que entra - no plano eclesial - a reflexão sobre vocação. E ela começa quando questionamos Deus sobre o que Ele deseja que façamos para a alegria d`Ele. Não somos apenas recipientes. Precisamos identificar os caminhos de retribuir a Deus tudo de bom, de maravilhoso que recebemos de tantas pessoas, e em tantas inumeráveis situações. 

Este é o sintoma da reflexão vocacional: quando sentimos o desejo de ser o canal, o meio pelo qual tudo que recebemos precisa ser passado adiante porque percebemos que somos relacionais e que não podemos armazenar egoisticamente tanta bondade recebida. 

Nesse momento, Jesus nos chama. Quando já não aguentamos mais de tanto buscar o nosso lugar no mundo, o nosso papel, Jesus sabe que este é o momento adequado para nos dizer olhando nos olhos: Vem e segue-me!

Este chamado pode acontecer em uma circunstancia que ninguém pode prever. Mas que acontece, acontece! E cada um de nós precisa estar preparado! E esse chamado não pode ficar sem resposta. Eu fico imaginando o choque que os primeiros discípulos sofreram quando aquele homem se aproximou deles e os chamou para segui-lo. 

Seguir para onde? A vocação não é algo que vem com um plano de ação bem definido, com passos, estratégias e cronograma. A vocação é como uma deliciosa aventura. Você só precisa dizer sim. Eu acho muito interessante como Jeremias classifica a experiência do chamado de Deus: uma sedução! 

Aí você pensa: que coisa boa! Semana que vem eu vou pro Seminário, estudo alguns anos e vou me tornar um reverendo/reverenda! Negativo! Você se dispõe a seguir a Jesus e ele vai te levar para onde Ele sabe que você vai se sentir feliz, seja na vida secular seja na vida religiosa. A vocação não é uma circunstancia de massificação. Ela é pessoal e quando acontece o chamado, Jesus chama você pelo nome, a exemplo do chamado dos discípulos. 

Você pode ser chamado para diferentes ministérios. Na comunidade eclesial há muitos distintos ministérios e entre todos eles há um lugar especial para cada um de nós. Já afirmava o apóstolo Paulo essa diversidade de ministérios e a complementaridade entre eles, de acordo com os dons de cada um (1Co 12,4-6).

Agora pensemos na oportunidade que Deus dá a cada um de nós, nestes tempos desafiadores. Já pensou em como a Igreja necessita de pessoas com diferentes habilidades para ajudar o povo de Deus a cumprir com eficácia a sua missão? Administração, comunicação, louvor, ações evangelizadoras, ações sociais, ensino e catequese, oração, incidência pública, ....certamente seria muito extensa a lista. Dentre os muitos ministérios, encontramos um muito especial: o cuidado pastoral de um rebanho local que necessita que lhe seja assegurada a alimentação na fé. Este ministério é o ministério ordenado dos reverendos e das reverendas aos quais cabe a liderança espiritual da Igreja, reconhecida e instituída por ela. 



 uma história que eu li em um devocional publicado pela Sociedade de São João Evangelista. É  sobre o um rabino russo chamado Zusia. Um diaalguns alunos estavam falando com ele e disse que um primeiro lhe perguntou: "Rabi Zusia, tenho medo que quando eu aparecer diante do Santo dos Santos que ele vai me perguntar, 'por que você não teve a  de Abraão?' Um segundo aluno acrescentou: ' Eu tenho medo de que quando eu estiver diante do Santo dos Santosele vai me perguntar, 'por que você não teve a paciência de Jó?' E ainda um terceiro estudante disse: ' Rabieu tenho medo deque quando eu estiver diante do Santo dos Santos ele vai me perguntar, 'por que não teve a coragem de Moisés?'

Então perguntaram ao Rabino: 'Rabi, quando você comparecer diante do Santo dos Santos qual é o seu medo da pergunta que lhe será feita? O Rabino Zusia respondeu: ' quando eu aparecer antes diante do Santo dos Santos meu medo é que ele vai me perguntar, ' Zusia, por que você não teve a coragem de ser Zusia?'"

Atender ao chamado de Jesus para um ministério não representa assumir nenhuma máscara. Quando Jesus chama os discípulos e a cada um de nós, Ele nos chama como somos e com o que temos, todos com sombras e luzes, com virtudes e com defeitos, os quais Ele mesmo molda nossa vida para o serviço do povo de Deus. 

Na medida em que estamos vivendo um momento de renovação de nossa juventude diocesana e provincial, muitos deles podem estar se questionando sobre o seu chamado (como jovens) para melhor servir a Deus. Para muitos deles pode estar havendo um burburinho na cabeça e no coração a respeito de sua vocação (chamado). 

O fato de terem vivido a recente experiência do ENUJAB e dos encontros diocesanos e paroquiais, foi sentido como uma benção. E o foi realmente. O grupo se sentiu como grupo mesmo. Houve uma interação natural e amorosa em Brasília. Muitos se emocionaram e descobriram que tantos outros jovens  vivem o mesmo desejo de servir a Cristo. No meu sermão de encerramento eu perguntei se estavam dispostos a dizer sim a Jesus e ouvi uma sonora resposta: SIM! 

Jesus está olhando cada uma(a) de vocês nos olhos. E está dizendo: segue-me! Por que não refletir seriamente sobre isso? E ele está disposto a dar a vocês a orientação e a serenidade para discernir como viver a sua vocação pessoal. Vamos levar a sério este chamado? Você só precisa dizer como Samuel: fala Senhor que teu/tua servo(a) ouve!

++Francisco
Primaz do Brasil

A vergonha e o descaso com nossos povos indígenas não pode ser tolerada



Uma vez mais manifesto minha tristeza e indignação em como nosso governo e as elites brasileiras ( e nisto não há divergência entre ambos) tem tratado com absoluta indiferença a questão indígena brasileira.

Estamos roucos - sociedade civil, igrejas e organismos internacionais - de chamar a atenção para o estado de abandono e de omissão completa de políticas afirmativas para a defesa dos direitos de nossos povos ancestrais. 

A mídia, patrocinada por amplos setores econômicos interessados em excluir os povos indígenas de suas reservas, assume um silêncio cúmplice com esta violência. O Congresso Nacional, em sua estratégia dominada pelos setores elitistas da sociedade, teima em retirar as garantias conquistadas no processo constituinte de 88. O judiciário, com uma lentidão paquidérmica, tem arrastado por anos decisões importantes que deixam à própria sorte e ao laisser faire o confronto desigual entre indígenas e grileiros, sempre fatais para os primeiros.

É preciso agir. Estaremos como Igreja representados nos eventos que terão lugar na primeira semana de outubro, no Mato Grosso do Sul, em torno da grave violência que as comunidades Guarani-Kaiowá naquele estado. Ali haverá audiência pública e visita à área de reserva dos indígenas no intuito de chamar a atenção da sociedade civil de que temos uma situação que pode eclodir a qualquer momento com graves consequências para a comunidade indígena. Estaremos ao lado de organismos como o CONIC, Koinonia, CEBI e CIMI, entre outros, levantando a nossa voz contra a injustiça e o descaso.

Diversas agressões da pistolagem de grileiros e senhores do agronegócio tem provocado vítimas e mortes sob o olhar complacente dos órgãos de segurança pública. Chega de omissão. Chega de intimidação. O Evangelho nos impõe o dever de defender a dignidade  dos povos indígenas. Furtar-se a esse testemunho é se tornar conivente com a injustiça. 


Francisco de Assis da Silva

Primaz do Brasil e Diocesano em Santa Maria

Solidariedade às mulheres brasileiras

Em razão das publicações misóginas contra a Presidenta da República, estampadas em carros nos últimos dias, venho declarar meu integral apoio à Declaração das atingidas por barragens. É meu dever denunciar qualquer expressão cultural que sirva de apologia à violência de gênero que ainda é institucionalizada em nosso país. Abaixo, reproduzo a nota:

Carta das atingidas por barragens em defesa da dignidade das mulheres

Tristeza, indignação, revolta e nojo. Foi isso que nós, mulheres atingidas por barragens, sentimos ao ver o anúncio do adesivo misógino que utiliza a imagem da presidenta Dilma Rousseff.
O tal adesivo ofende não apenas à presidenta, mas sim a todas nós mulheres. Ele incita a violência contra as mulheres, ao considerar o estupro uma forma “bem humorada” de protesto político. Agride a todas nós por reforçar que nossos corpos são um objeto e de modo especial agride as mulheres que ousam fazer política – um espaço do qual historicamente somos impedidas de participar.
Nós, atingidas por barragens, sentimos na pele o que é sermos cotidianamente violentadas. Nas regiões onde moramos, nos defrontamos com o aumento da violência sexual e a prostituição, a desestruturação familiar e comunitária e uma série de outras violências que atingem especialmente as mulheres. Essas violações são decorrência do modelo energético adotado em nosso país, no qual a produção de energia é para aumentar as taxas de lucro do capital e não para o bem-estar do povo.
A violência contra a mulher, independente da forma, não tem nenhuma graça e deve ser combatida. No Brasil, os homens agridem uma mulher a cada 24 segundo e assassinam uma mulher a cada 90 minutos. Em grande parte dos casos, os culpados ficam impunes. As vítimas, por sua vez, são frequentemente culpabilizadas por terem “provocado” tais atos. Essa violência, sistemática em nossa sociedade patriarcal, é reforçada e naturalizada com gestos aparentemente banais como a venda desse adesivo a R$ 34 no Mercado Livre.
Não é coincidência que a criação desse adesivo se dê em um momento de crescente conservadorismo, retrocessos e ódio das classes dominantes em nosso país. A intolerância religiosa, a homofobia e a criminalização da juventude se dão com aval e incentivo dos meios de comunicação de massa, interessados em desestabilizar o país. O fundamentalismo ocupa o Congresso brasileiro. A Constituição é rasgada impunemente em manobras legislativas, como por exemplo, na aprovação da redução da maioridade penal.
A crise econômica do capital é transformada em crise política e as trabalhadoras e trabalhadores são os únicos a pagarem a conta com sucessivas perdas de direitos. Agora veio o “golpe de mestre”: o petróleo, o bem mais estratégico do povo brasileiro, está prestes a ser entregue ao imperialismo, através de um projeto relâmpago do senador tucano José Serra, e poucos parecem se dar conta disso. Todos esses fatos compõem um golpe imperialista que está sendo implementado a conta-gotas em nosso país.
Por todos esses motivos, nós mulheres organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) não vamos nos calar, nem nos deixar intimidar, nem perder a coragem de seguir lutando lado a lado com todas e todos que têm o compromisso em combater as injustiças de nossa sociedade. Nessa carta, mostramos nosso repúdio a este ato covarde e misógino e somamos nossas vozes àquelas que pedem que os autores dessa ofensa sejam punidos.
Não à violência contra as mulheres!
Mulheres, água e energia não são mercadorias!
Mulheres Atingidas por Barragens do Brasil
Julho de 2015