segunda-feira, setembro 07, 2020

Preconceito mata! É hora de incluir!

Tenho acompanhado o debate acerca do projeto de lei 9091/2020, em discussão na Câmara Municipal de Santa Maria, que trata de uma política afirmativa em favor da inclusão plena das pessoas LGBTQI+ na Escola.

Primeiramente quero externar meu apoio a esta iniciativa porque ela se volta a promover a superação da sistemática exclusão e violência contra esta comunidade.

Como se sabe, esta comunidade sofre sistemática violência física, psicológica e simbólica por parte de uma sociedade que ainda não eliminou o preconceito de gênero, de classe e de cor.

Mas o que mais me surpreende nos debates na Câmara é a invocação de argumentos de roupagem (isto mesmo, roupagem) religiosa para descaracterizar o referido projeto. 

Utilizar argumentos de caráter religioso significa violar primeiramente o princípio da laicidade do Estado, segundo o qual nenhuma convicção religiosa deve anteceder a adoção de políticas públicas, já que a sociedade e seus cidadãos e cidadãs o são por sua condição política e civil e não por sua profissão de fé.

Um outro ponto que merece minha consideração é a maneira como alguns vereadores invocam argumentos de uma perspectiva cristã para justificar a sua oposição ao projeto. Contra isso, argumento como cristão anglicano e bispo diocesano que esta justificativa não tem fundamento no Evangelho. Em nenhum ponto do Evangelho se encontra qualquer justificativa para continuar excluindo pessoas que têm seus direitos fundamentais desrespeitados.

Santa Maria assiste impassível a violência contra as pessoas LGBTQI+, com assassinatos (somente entre o ano passado e este ano já aconteceram 4 assassinatos de travestis), além do preconceito sistemático que esta comunidade sofre no cotidiano de suas vidas, excluídas como se fossem párias em todas as instâncias da sociedade. E a Escola é um espaço onde, conforme o Relatório publicado pela Assembléia Legislativa sobre a violência contra as pessoas LGBTQI+, esta violência tem sido contínua.
 
Escola é lugar de formação de cidadania. E não podemos construir cidadania sem respeito à todas as pessoas. Nenhuma sociedade alcança maturidade política enquanto alguma pessoa tiver sua dignidade desconsiderada.
Para além de todas as contradições sociais que vivemos em nossa cidade, não podemos continuar escondidos atrás de preconceitos e negando dignidade a pessoas que tem direito à respeito e dignidade.

Minha palavra de apoio à iniciativa e que Santa Maria avance na inclusão social, seja entre classes, etnias e gênero!

sexta-feira, março 06, 2020

Mensagem Episcopal para o Dia Internacional da Mulher


"Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus." Gl 3,28

Irmãos e Irmãs!

Por ocasião desta data especial, estendo minhas orações e benção a todas as mulheres leigas e clérigas de nossa querida diocese. Desejo que neste domingo especial se utilize o espaço da liturgia comunitária para dar voz às mulheres, ouvir seus testemunhos de fé e aprender delas a dimensão
feminina que a ventania divina faz soprar sobre a Igreja.

Em tempos de crescimento da violência contra a mulheres e meninas, as lideranças da Igreja são chamadas ao enfrentamento da cultura do patriarcado que exclui, subjuga e silencia as nossas irmãs, parceiras conosco da construção de novas relações de humanidade.

Dentro e fora da Igreja é importante assegurar o respeito, a igualdade e a liberdade a todas as mulheres. Garantir a segurança emocional e espiritual de todas as pessoas é um dever de cada cristão e cristã. Nesta sexta-feira, dia 06, celebraremos o Dia Mundial de Oração que é um movimento ecumênico feito pelas mulheres e para mulheres e em nossa diocese algumas de nossas comunidades estarão envolvidas diretamente nestas celebrações. Que se mantenha este espírito celebrativo e que, para além do dia 08 de Março, se possa continuar construindo respeito e empoderamento de nossas irmãs!

Deus abençoe a nossa Diocese e suas corajosas mulheres, clérigas e leigas no cumprimento da missão que Jesus nos chama a realizar!
+Francisco, Santa Maria

sábado, dezembro 28, 2019

Um país cada vez mais (des) civilizado e entorpecido!

Me recordo que meu primeiro post de 2019 tratou da grave ameaça sofrida por Jean Wyllys, obrigado a renunciar ao mandato parlamentar pela ameaças sofridas encabeçadas por uma direita raivosa. Ele se auto exilou na Europa, privando nosso parlamento de sua combatividade política e defesa expressa dos pobres, pretos e LGBTs.

Entre este episódio e a presente data, às vésperas de se celebrar a virada do ano, apenas se confirma que Jean estava certo. O Brasil, definitivamente, não é mais um lugar seguro para quem defende uma agenda de direitos humanos, uma agenda ambientalista ou mesmo uma agenda cultural da multi-diversidade.

Vivemos hoje um contexto de arremedo de democracia. O fascismo definitivamente saiu dos porões da história brasileira para, em plena luz do dia, implementar um programa que junta ideologia de direita, teocracia cristã fundamentalista e ultra-liberalismo econômico. Inclusive, este programa político e econômico junta componentes que se acoplam entre si por pura acomodação, mas que não escondem suas profundas contradições internas. Até quando conseguirão agir juntos sem implodir a gente não sabe, mas o estrago que estão causando exigirá mais de uma geração para serem corrigidos.

Um outro componente preocupante é que, esta articulação chegou ao poder pelo voto. Aliás, não basta dizer que ganhou a eleição por causa das fake news e robôs de whatsapp. Esta aliança encontrou eco no inconsciente coletivo de um povo que foi formado sob a bandeira da exploração, do escravismo e do saque às riquezas nacionais promovidas pela Metrópoles colonizadoras (afinal Portugal sempre foi parte de uma outra periferia controlada pela Inglaterra).

Fomos criados à sombra de uma estrutura de classes claramente hierarquizada, onde os privilégios e as fidalguias mantiveram o povo explorado, morrendo de trabalhar para sustentar o modelo econômico e o status de seus patrões.  Um sistema cauterizado nestes parâmetros resistirá a qualquer esforço de inversão de vetor decisório. Ao longo da nossa história, todos os esforços de grupos políticos para reduzir desigualdades encontraram a resistência das elites que sempre usaram o braço militar para garantir seus privilégios. O agravante agora é que o golpe tem cara parlamentar e judiciária!

Este ano passará à história como o ano das maldades. Reforma Previdenciária, precarização do trabalho, misoginia, lawfare contra a esquerda, liberação de veneno para o agronegócio ampliar lucros, rachadinhas a todo vapor, queimadas estimuladas pelo agronegócio, aumento do gás, aumento da carne, aumento de combustível,....ufa! melhor parar por aqui porque a lista é imensa!

Mas como se não bastasse tanta desgraça, vem o terrorismo fundamentalista cristão: atentado contra uma produtora cultural pelo fato de ter retratado um Jesus gay. Agora, mais isso, os delegados de costumes, tipo "fiscais de esfincter anais" até do Mestre dos mestres, se autorizam a usar da violência e a coisa está sendo encarada apenas como dano ao patrimônio e risco à vida de terceiros. Isso só demonstra o quanto as teias do Estado estão sendo corrompidas por uma ideologia que não valoriza sequer a arte.

Por isso, eu digo: Jean, você estava certo! Resta ver quando o povo mesmo vai cair em si e se assumir como força política pra dizer um veemente basta a tudo isso! E essa manifestação de força não acontecerá se este mesmo povo ficar diante da TV e consumir a narrativa construída para entorpecê-lo! Esse entorpecimento leva o povo a esquecer de pedir resolução para o assassinato de Marielle, dos pretos que morrem nas favelas, do Queiroz e suas milícias, ....acho que não preciso dizer mais nada!

Que 2020 seja um ano de maior eficácia na resistência e que as desconexões entre as forças que estão no poder comecem a se desestruturar. Mas o povo será fundamental neste processo: chega de inação!! Vamos voltar à trilha civilizatória ou então nos preparemos para uma barbárie sem volta!!



quinta-feira, dezembro 12, 2019

Mais um vida trans que se vai na maré da violência!

Hoje Santa Maria amanheceu manchada de sangue e com a face envergonhada pela atrocidade cometida contra Veronica Oliveira Webber, conhecida como Mãe Loira. Ela foi morta a facadas nesta madrugada. Ela, uma mulher Trans e liderança LGBT da cidade, conhecida pela sua incansável militância em defesa da vida de travestis e transexuais. As circunstancias de mais este crime são sempre as mesmas: ódio contra a diferença!

Mas o Brasil de nossos tempos não foi e não é um lugar seguro para ela e para tantas outra pessoas que são estigmatizadas por uma sociedade hipócrita, dominada pelo preconceito e a violência simbólica da gênero.

E isso me dói profundamente, como bispo, como cidadão e como militante de direitos humanos. Quando hoje no jornal televisivo de um grupo de comunicação do Rio Grande do Sul vejo o comentarista anunciar, quase em tom festivo,  que o número de homicídios diminuiu no estado fico a me perguntar: para que segmento diminuiu esta estatística? Porque, para o segmento das pessoas LGBT e para as mulheres isto não é realidade que se venha a comemorar!

Conheci Mãe Loira em um dos encontros do PSOL em Santa Maria. Exatamente na ocasião da apresentação do relatório da Comissão Especial para Análise da violência contra a população LGBT. Ali estava ela lutando por justiça porque recém duas de suas amigas haviam sido assassinadas em circunstâncias que apontavam para dois crimes de ódio, cometidos num espaço de 24 horas.

O Brasil é o país que mais mata pessoas travestis e transsexuais no mundo. E esta prática tende a ser cada vez mais autorizada pelo contexto de apologia à violência em que vivemos como sociedade. Um governo que persegue minorias, militantes de direitos humanos, que se alicerça em um racismo institucional e que encara pretos e pobres como criminosos. É preciso resistir! É preciso mobilizar forças para este enfrentamento!

Verônica, Presente!! Que tua vida alimente as nossas para que digamos com coragem: vidas Trans importam! Vidas LGBT importam! Vidas negras importam! 

sexta-feira, dezembro 06, 2019

Os dilemas da esquerda brasileira: o caso da votação do pacote anti-crime

Uma das mais claras limitações de nosso modelo representativo é a dificuldade de se fazer enfrentamento político no Congresso. O sistema praticamente censitário de nosso sistema eleitoral, dificulta radicalmente o acesso aos parlamentos daqueles setores da sociedade que estão comprometidos com uma agenda popular e socialista.

A decorrência se torna, portanto, lógica. O perfil social e ideológico de nosso Congresso se impõe como uma agenda conservadora, que reflete os interesses da classe dominante. A luta, portanto, se dá por políticas de conciliação onde se busca o possível e não o desejável.

Um claro retrato disso foi a votação do pacote anti-crime. Gestado no nicho mais conservador de nossa política atual, seu grande idealizador - o ex-juiz Sérgio Moro - acompanhado por meia dúzia de procuradores da justiça e, no parlamento, apoiado pelo segmento policial e miliciano, assumia definitivamente a ideologia do Estado Onipotente.

Um verdadeiro cheque em branco para reprimir, encarcerar e, se necessário, matar sem sofrer nenhuma limitação à essa saga - mistura de autoritarismo à la AI-5 e fascismo pseudo-moralista.

No embate dentro do Congresso se observou um dilema nas trincheiras dos segmentos identificados com uma proposta política mais à esquerda. O PT e o PC do B votaram majoritariamente a favor do pacote, alegando que era uma estratégia para garantir a não aprovação da excludente de ilicitude - espécie de cereja do bolo do Ministro Moro. O PSOL, por sua vez, ficou dividido. Uns apoiaram a versão final do projeto. Outros, porém, entendem que é preciso questionar o pacote como um todo!

A votação revelou que a proposta de liberação para matar não tinha chance mesmo de avançar, menos por convicção dos deputados conservadores do que por razões eleitorais. Os outros pontos polêmicos foram excluídos da proposta através do bom trabalho dos parlamentares mais à esquerda. No entanto o projeto final contém dispositivos que são indiscutivelmente perversos para os pobres e os pretos que são sempre os primeiros suspeitos e constituem a maior população carcerária do país.

A batalha agora vai para o Senado. Ali, o perfil político de seus componentes é ainda bem mais conservador e certamente a batalha vai ser muito mais dura. Primeiro para conter reversões do que foi aprovado na Câmara. E, segundo, para ampliar as garantias e o respeito ao Estado de Direito.

A pergunta que talvez caiba aqui é a seguinte: que mecanismos podemos fortalecer na sociedade civil para que ela assuma autêntico protagonismo nestes embates? Do jeito que está, estaremos condenados a nos contentar com muito pouco. Não quero desqualificar os parlamentares que tem lutado bravamente contra os retrocessos. Mas fico a pensar em como podemos fortalecer o campo progressista para que a agenda popular se imponha nesta difícil conjuntura que enfrentamos. Quem sabe o caminho não comece pelas eleições do ano que vem.

sábado, agosto 10, 2019

Homenagem aos Pais

Amanhã se costuma dizer que é um dia de oferecer presentes àqueles que exerceram em nossas vidas o papel de pais, naturais ou afetivos, não importa, mas que nos marcaram com suas digitais de amor e dedicação.

Mas mais que oferecer presentes, é dia de agradecermos ao Pai materno celestial pela benção que Ele nos concedeu gratuitamente de partilharmos essa humanidade tão extraordinária com seres que nem escolhemos, mas que foram cuidadosamente escolhidos para nós!

Ao lembrar de meu próprio pai, recordo que foi um homem de enorme resiliência. Um homem do campo, filho de uma década marcada por grandes transformações políticas no Brasil, Severino, sim, nordestino e camponês, viveu uma trajetória de vida respeitável.

Não lhe foi dada muita oportunidade para estudar, mas isso não impediu de ele aprender grandes lições na escola da vida e me transmitir coisas tão fundamentais que nenhuma escola ou universidade ensina: caráter!

Esta é a mais fundamental responsabilidade de um pai - e eles dividem isso com nossas mães! Transmitir aos filhos os valores fundantes que determinam a qualidade da relação destes com o mundo e a sociedade.

Valores como honestidade, inconformismo com a injustiça e respeito podem ser construídos no cotidiano de uma relação de diálogo e de vivências simples. Desde o colo, ou nas brincadeiras que constroem uma cumplicidade que deixam marcas indeléveis na alma dos filhos.

Estas marcas os guiarão para a vida toda. E é importante que sejam marcas que apontem para a plenitude do ser. Nunca para projetos ou projeções cheias de mesquinhez, preconceito e violência. Os consultórios psiquiátricos estão cheios de gente que vive tentando resolver os traumas de infâncias e adolescências reprimidas.

Neste dia dos Pais, vamos agradecer pela benção daqueles que assumiram essa tarefa com tremor e temor, mas que aprenderam a exercê-la com amor. Deus abençoe a todos os pais de nossa Igreja!

terça-feira, julho 30, 2019

Dia Internacional contra o tráfico de pessoas



Hoje se celebra o Dia Internacional contra o tráfico humano, uma das mais vergonhosas facetas da natureza humana que submete crianças, mulheres e homens à escravidão, à exploração sexual e ao definitivo desenraizamento cultural e emocional.

O começo dessa chaga vergonhosa reside na vulnerabilidade econômica de suas vítimas. O padrão, o método e a implementação apenas muda de geografia, mas repete  mesmo modelo do movimento escravagista posto em voga pelas nações colonizadoras da África e das Américas entre os séculos XVI e XIX.

Se naquele período o interesse era recrutamento de mão de obra barata, hoje o cenário se apresenta com uma complexidade muito maior. O tráfico humano hoje representa um grande negócio para quem o explora. Segundo fontes da ONU, esta cifra pode chegar a 40 bilhões/ano. A repressão policial contra esse tipo de crime é dificultada pela mobilidade de seus patrocinadores e a capacidade se manter muitas vezes anônimos, agindo por entre empresas e/ou grupos com fachadas de legitimidade e negócio lícito.

Como sempre, as maiores vítimas são as mulheres. Segundo dados da ONU 72% das vítimas são mulheres e meninas, geralmente destinadas para a indústria do sexo. Quando não destinadas para o segmento de exploração sexual, elas junto com os homens e jovens são destinados para o trabalho escravo onde permanecem eternamente cativos aos agentes, pagando por sua própria sobrevivência, como, por exemplo, assisti pessoalmente em alojamentos de trabalhadores em Dubai, em 2016, numa das mais terríveis e estarrecedoras experiencias de minha vida.

Acham que o Brasil está livre dessa chaga? Não. Apesar das iniciativas oficiais de combate a esse tipo de crime, há um crescimento de ocorrências, tendo sido monitorado no ano de 2016 cerca de 3 mil casos. Certamente este número não representa toda a realidade por diversas razões: desconhecimento das pessoas sobre o tema, o medo das vítimas de sofrerem retaliações e a própria dificuldade de definir um padrão de tipificação claro e racional do problema.

Conclamo aos irmãos e irmãs a estudarem e pesquisarem sobre este tema que tem sido causa de muita dor, alienação e exploração de pessoas no mundo inteiro. Na conjuntura brasileira de recessão, desemprego e redução de políticas sociais, o cenário aponta para o crescimento desse problema e um sério desafio pastoral que se coloca para a Igreja. Uma boa fonte de estudo e pesquisa é a página da Organização das Nações Unidas (https://nacoesunidas.org/mpt-onu-brasil-e-parceiros-lancam-campanha-todoscontraotraficodepessoas/https://nacoesunidas.org/mpt-onu-brasil-e-parceiros-lancam-campanha-todoscontraotraficodepessoas/) , além de trabalhos e pesquisas acadêmicas que podem ser acessadas via internet.

Todos e todas contra o tráfico de pessoas!



quarta-feira, junho 12, 2019

Infância é para sonhar!



"Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, seria melhor que fosse lançado no mar com uma grande pedra amarrada no pescoço.
Lembrando-me destas palavras de Jesus fico a imaginar em quanto nossa sociedade e nosso sistema não levam a sério esta expressa recomendação dele. Neste dia mundial de enfrentamento a esse grave crime, venho trazer à tona a necessidade de nossa Igreja assumir mais firmemente a defesa de que nossas crianças vivam plenamente o direito à brincar, a sonhar e construir laços afetivos que as prepare para se tornarem cidadãs plenas, saudáveis e criativas.

No Brasil, segundo dados do MP do Trabalho, entre 2014 e 2018, foram apresentadas 21 mil denúncias de trabalho infantil. Considerando que, em muitos casos denuncias nem chegam a ser formalizadas, este número alcança proporções realmente preocupantes. Os danos emocionais e intelectuais decorrentes do trabalho infantil podem se tornar irreversíveis no processo de socialização dessas crianças.

Na conjuntura econômica que se vive hoje, com o recrudescimento da pobreza no Brasil, é preciso ficar atento para o aumento do número de crianças trabalhando, já que há uma direta relação entre uma coisa e outra. Além do que, para o mercado, com  lógica de menos custo gerar mai lucro, fica mais fácil explorar o trabalho infantil.

Há uma variável que precisa ser combatida para impedir que essa aberração seja ampliada em nossa sociedade: o mercado está cada vez mais cruel no uso das ferramentas de estímulo ao consumo. Dentro deste espectro, as crianças são vitimas de todos os estímulos de consumo assim como seus pais, gerando uma pressão econômica que cria a necessidade de antecipação da chamada vida economicamente ativa.

A Igreja precisa assumir sua responsabilidade de combater qualquer processo de estímulo ao trabalho precoce, assumindo  a plenitude do que Jesus tão veementemente nos ensinou. As crianças precisam ser acolhidas e respeitadas em seus direitos. Nada deve ser exigido delas que venha a provocar uma "adultização" precoce que altere negativamente o seu processo de amadurecimento emocional e social. Como bem nos lembra o lema deste ano da Campanha de combate ao Trabalho infantil: Infância é para sonhar!!

+Francisco, Santa Maria


sexta-feira, junho 07, 2019

Mensagem de Pentecostes do Bispo Diocesano





"Fazei tudo com amor " I Co 16:14

Irmãos e Irmãs,

Celebramos a Páscoa há 50 dias, movidos pela alegria da nova criação e pela renovação de nosso compromisso batismal. Neste domingo estamos celebrando o aniversário da Igreja, pois neste dia o povo de Deus iniciou a jornada missionária espraiando para o mundo inteiro a mensagem de salvação para todos os povos da terra.

Nestes recentes dias, a Comunhão Anglicana tem vivido a Campanha Venha o Teu Reino Senhor que nada mais é do que uma tentativa de chamar a atenção para a preparação litúrgica para a grande festa de Pentecostes. Em nossa diocese, procurei compartilhar meditações diárias curtas através da página do Facebook e algumas pessoas reagiram muito positivamente. Entendo que está mais que na hora de explorarmos os recursos tecnológicos que nos coloca em contato com pessoas para além da comunidade local. Isto permite espalharmos as Boas Novas do Reino de Deus a uma audiência muito mais ampla. Que essa experiencia possa ser ampliada no proximo ano!

Às vezes nos sentimos como se estivéssemos naquela sala superior (conforme relato de Atos dos Apóstolos), reunidos, confusos, inseguros, com medo do mundo lá fora. Mas é exatamente este mundo lá fora que pulsa com suas necessidades que espera algo diferente de nós. E é para esse mundo que Deus nos quer por em diálogo.

O vento impetuoso que sacudiu os discípulos e discípulas é a força que nos pode impelir para abandonar nosso medo, nossa preocupação excessiva com nosso bem estar, com o poder, com as estruturas e fazer como Pedro fez: por-se de pé e falar!

Oro a Deus para que tenhamos essa coragem. Oro a Deus para que nos embriaguemos do Espírito e anunciemos, sem medo, as proezas que Deus realizou, realiza e realizará no mundo inteiro. Para tanto, é essencial sentirmo-nos completamente livres e disponíveis a Ele. Somente assim é que poderemos fazer tudo com amor, conforme o lema de nosso 67º Concilio Diocesano, que aguardamos com muita esperança de ser um momento muito especial de nossa querida DSO.

Vem Espírito Santo e renova a Criação, a Igreja e cada um de nós. Afasta de nós o medo e dá-nos a coragem necessária para anunciar as proezas de Deus para toda a humanidade. Dá-no o poder do amor que transforma, que alegra e que produz muitos frutos!!

+Francisco


quinta-feira, maio 09, 2019

Homenagem às mães



"E deixando tudo, o seguiram" Lc 5,11

Neste dia das Mães, quero expressar meu sentimento de gratidão por todas as mães de nossa diocese. A obra representada nesta mensagem é de Pablo Picasso e representa a força emocional de uma mãe que amamenta a sua criança. É esta força que move a vida.

Agradeço a Deus pela determinação que elas têm de acreditar no impossível, pela capacidade de amar sem medida e  por nutrir pacientemente seus/suas  filho/as com o exemplo e com a fé.
Essa percepção é válida para todas as mães, tanto as biológicas como aquelas que o são de coração. 

A exemplo do chamado dos primeiros discípulo/as de Jesus, elas são capazes de deixar tudo, às vezes à custa do próprio sacrifício e seguir esse ministério desafiador e imprevisível. 
Mesmo com o fato de que nas novas gerações alguns homens estão começando a partilhar melhor essa tarefa, as mães foram sempre as que assumiram o ônus emocional de cuidar das novas gerações. 

Damos graças a Deus pelas vidas de todas aquelas que nos antecederam e foram nossas animadoras no caminho da vida. Damos graças às mães que estão agora necessitando de cuidado e de colo, pedindo a Deus que nos dê a capacidade de lhes alcançar o máximo de carinho e conforto. 

E, quanto às mães que estão em pleno vigor, ativas, se virando em tantas cópias pra dar conta dessa tarefa, peçamos e Deus que elas assumam a coragem de uma Miriam, profetiza do Primeiro  Testamento, a serenidade de Maria, que disse sim ao maior desafio já colocado nas mãos de uma jovem adolescente, e a firmeza de uma Madalena, discípula, que testemunhou a ressurreição do Senhor, mesmo quando duvidaram dela.

Deus abençoe nossas mamães!! 

+Francisco, Santa Maria

segunda-feira, maio 06, 2019

Sucateamento da Previdência e da Educação: o único caminho possível é a rua!




Imagem: CDSantos/FuturaPress/Estadão Conteúdo

As recentes medidas do governo apontam cada vez mais para o encurtamento das despesas públicas e a transferência intencional de amplos segmentos da economia para o domínio privado.
Este modelo segue a proposta do liberalismo econômico que não hesita em instrumentalizar modelos de extrema direita, desde que os fundamentos do Capitalismo e do livre mercado estejam assegurados.

A Previdência é um desses cobiçados setores que já despertou a ganancia do sistema financeiro que está na iminência de receber de mão beijada um capital de 1 trilhão de reais. Este modelo só tem um beneficiário: o setor rentista. Experiencias recentes em outros países revelam que as pessoas aposentadas, dada própria dinâmica previdenciária, vão perdendo poder de compra, culminando com situação de pura mendicância. O exemplo do Chile já é bem conhecido e o ministro da Economia já declarou publicamente que deseja que este modelo seja implantado no Brasil.

Outro setor que está na mira do segmento privado é a Educação. Os cortes orçamentários dos IFEs e das Universidades, em torno de 30%,  representarão perda irreparável da qualidade do ensino e da pesquisa e um completo sucateamento estrutural do ensino público superior. Isso não é por acaso. Há um amplo setor que está se preparando para entrar com todas as fichas neste segmento. O setor de  grupos privados de ensino será o maior beneficiário desse sucateamento. O fato de a irmã do ministro da Economia ser uma das líderes de Associação Nacional de Universidades privadas aponta para uma situação que pode vir a ser comprometedora nesta questão.

Uma vez mais, como tem sido ao longo destes três últimos anos, a sociedade sofre ataques articulados contra os direitos sociais e o enfraquecimento de políticas públicas de redução de desigualdades. E isto não se dá de forma espontânea. Há um claro projeto de desmonte do Estado Social no Brasil. 

Diante desse quadro, cabe a pergunta: o que fazer? Vamos por partes. No plano político, as forças progressistas estão em visível minoria. E mesmo que a própria base do governo ainda esteja tropeçando nas diferentes agendas em conflito - já que reúne um espectro político que só tem de comum seu espírito "anti-petista" - certamente deverão obter ganhos no espaço parlamentar.

Mas a democracia cada vez mais precisa ir além do seu alicerce político-eleitoral: a sociedade civil e suas distintas forças cidadãs poderão pressionar o governo para que desastres dessa ordem não venham a acontecer. A rua é o espaço político mais forte. Ainda temos a rua. Mas podemos também nos acomodar e ver a caravana dos fascistas passarem sem nenhuma resistência. O Brasil que queremos, e neste Brasil, a previdência, a educação, a saúde e os direitos inalienáveis de nossa cidadania vai depender de nossa força, de nossa mobilização e de nosso grito!




Preconceito mata! É hora de incluir!

Tenho acompanhado o debate acerca do projeto de lei 9091/2020, em discussão na Câmara Municipal de Santa Maria, que trata de uma política af...