A interrogação venceu!

As eleições municipais em seu primeiro turno foram concluídas. A euforia da grande mídia está estampada porque a boca de urna sucessivamente articulada e programada com a ajuda da PF e da Justiça, causou um tsunami no Partido que ela mais detesta. O PT perdeu cerca de dois terços de suas prefeituras em todo o país.

Mas há um dado que a mídia não considera relevante, embora não deva escapar a uma análise mais profunda. A soma de votos nulos e brancos, bem como a abstenção alcançaram índices muito elevados em comparação com pleitos anteriores.

Senão vejamos. Em São Paulo, o candidato eleito teve menos votos do que o número de abstenções, de votos em branco e nulos. Se não deslegitima o resultado, pelo menos o compromete. No Rio de Janeiro, embora o resultado final só aconteça no segundo turno, o candidato Crivela teve menos votos que a soma dos nulos, brancos e abstenções. Em Belo Horizonte, o candidato João Leite e seu concorrente para o segundo turno  tiveram juntos menos votos que as abstenções, votos brancos e nulos.

Esta constatação fere inapelavelmente a saúde da democracia brasileira. Praticamente dobrou - comparando-se pleitos anteriores - o número de eleitores que optaram por não votar ou se eximir claramente sua preferência política.

O que isto representa? Certamente um desencanto com o modelo político brasileiro e um desinteresse em fortalecer um processo de participação efetiva na escolha de gestores públicos. Isto é muito preocupante porque leva à omissão de importante parte da sociedade em usar o único poder de decisão que possui para mudar os destinos de sua cidade, de seu estado e do seu País.

Mas quem é responsável por isso? Há um conjunto de fatores e entre eles enumero um que para mim está muito claro. A grande mídia desempenhou um papel fundamental nisso. Desde 2005, portanto há onze anos atrás, ela elegeu como seus alvos os políticos da esquerda brasileira apontando suas câmeras e seu trabalho investigativo para os escândalos que, apesar de envolver pessoas de todas as orientações políticas, foi sempre conduzida por um anti-petismo odioso. Com a ajuda de um Judiciário extremamente partidarizado, garantiu o espetáculo de cada dia que ocupava seus tele-jornais e as principais manchetes de jornais e revistas. A fixação anti-petista seguiu seu rumo com o apoio irrestrito das elites.

O discurso contra a corrupção (dos outros) conquistou uma classe média realmente mediana em termos de compreensão do que é realmente um processo político. Foi capaz, inclusive, de manipular um aparente movimento de massa para impressionar o cidadão comum. Conheço pessoas próximas a mim que caíram nesta armadilha!

Este clima anti-petista e contra qualquer coisa que soasse de esquerda contaminou o eleitorado médio brasileiro. A espetaculosidade do golpe aprofundou ainda mais o desgosto do eleitor que não tem militância partidária especifica. Ficou para muitos a sensação de que a mídia não estava tão imparcial ao omitir de seu foco outros tantos políticos de orientação conservadora que estão envolvidos na lama da corrupção e nas pautas conservadoras que desejam somente governar com um discurso amanteigado e reduzir, na verdade, os avanços que o País alcançou nos últimos anos.

Este grupo decidiu não votar, votar em branco ou simplesmente anular seu voto. Trata-se de um eleitorado vivendo a descrença com o voto ou a revolta com a rotina política. Isso é preocupante porque dá lugar à uma perigosa omissão que é terreno fértil para germinar uma cultura fascista. Aliás, uma cultura que é muito desejada pelas elites para manter inalterada a dominação econômica e política de um povo.

Vivemos assim mais um episódio de despolitização da sociedade brasileira. Os eleitos ganharam as eleições - isto é fato - para não parecer que estou apenas decepcionado com a derrota da esquerda no Brasil. Mas a derrota não é somente da esquerda. É uma derrota da sociedade brasileira.


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