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A coisa não é tão glamorosa assim.....

Li um artigo no conceituado Financial Times no qual se lia que o Brasil está de forma privilegiada assistindo à crise econômica que afeta o mundo. Em outras palavras, a economia brasileira vive uma tranquila situação, comparada com o frenesi que vivem economias como as dos EUA, Grécia, Itália e Espanha.

Para mim, no entanto, essa aparente euforia merece alguns cuidados. Sem dúvida, as políticas de estabilização econômica e inclusão social vividas nos governos FHC e Lula elevaram o Brasil a uma situação privilegiada. No entanto, essa euforia pode carregar consigo o germe de um colapso que pode se revelar incontrolável.

O crescimento do consumo, se por um lado aumenta a qualidade de vida de milhões de pessoas, pode se tornar um perigoso vírus se não for controlado rigorosamente por fundamentos econômicos que resistam a um desmedido consumo e/ou uso do crédito. A prova disso começa a ser vivida com um esgotamento da produção industrial que pode ser estrangulada pela falta de uma infra-estrutura que permita a circulação dos bens com baixo custo. Não é de hoje que nossa infra-estrutura nunca foi planejada com antecipação, seguindo sempre atrás da velocidade da demanda e agravada pelos custos da corrupção especialmente danosos ao erário público. Qualquer pessoa de bom senso sabe que nossos portos, estradas e aeroportos estão sucateados e nem mesmo uma Copa do Mundo à vista tem apressado os órgãos públicos e o capital privado se entenderem sobre prazos e custos de obras. Os recentes escândalos no Ministério dos Transportes apontam para um problema para além do político: implicam em desperdício e atrasos nos cronogramas de projetos que poderiam ajudar a melhorar a infra-estrutura do país.

Indo para outro preocupante campo, temos a questão do crédito. Montado num cenário de crescimento da renda da população, o governo ampliou o crédito consignado e facilitou a vida de milhões de pessoas ampliando a oferta de capital para financiamento do consumo. Por si só, esta medida seria apenas um estímulo benfazejo. Só que a espiral de consumo se expandiu de tal forma que começou a voltar a inflação. Isso apesar de os índices chamados oficiais não retratarem exatamente o custo dos alimentos nem dos serviços. O balanço de pagamentos começou a preocupar as autoridades monetárias porque o crescimento dos gastos de brasileiros no exterior começou a inverter o desempenho das contas. A conjuntura internacional tem forçado o governo a tomar medidas de proteção à industria e à exportação, além de restringir o crédito ao consumidor. O real se valorizou e todos os esforços para manter a moeda em níveis aceitáveis para o mercado interno tem se mostrado pouco eficazes. Resultado: aumento de juros com uma restrição fiscal ao crédito que tem aumentado em espiral preocupante o endividamento das famílias.

Esta situação é parecida com a que antecedeu a crise econômica que abalou os mercados a partir do estouro da bolha nos EUA. Os brasileiros, de modo geral, tem hoje um elevado endividamento e o crescimento da carga tributária e o aumento de juros pode gerar uma crise sem precedentes, A classe média brasileira hoje tem praticamente metade de sua renda comprometida com o pagamento de dívidas que vão desde o cartão de crédito, passando pelo financiamento de automóveis até o uso do cheque especial.
Na medida em que o governo aumenta os encargos para refrear o consumo, quem paga a conta é o consumidor que vê suas dívidas crescerem astronomicamente. Ou seja, de olho no crescimento econômico do PIB o governo criou uma bolha de crédito que se não for controlada adequadamente levará a um estouro da bolha com conseqüências imprevisíveis. Como sair dessa sinuca? Seria bom as autoridades econômicas brasileiras se apressarem a resolver essa equação. Corremos seriamente o risco de vermos o país mergulhar em uma recessão que não interessa a ninguém. Mais que nunca, é preciso se desenvolver uma cultura de consumo responsável.

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