Isso podia muito bem ser uma cena de filme de ficção sobre algum vírus alienígena dominando as pessoas, como uma ação arquitetada por alienígenas de inteligência superior, desejosos de dominar a Terra.
Infelizmente a ficção não é mais ficção: é a pura realidade! Parece uma repetição dos distúrbios de rua que sacudiram Paris há um tempo atrás ou então a Atenas de até agora há pouco, com uma multidão na rua desafiando a ordem. Para além da constatação dos fatos, tenho visto diferentes percepções do fenômeno que me chamam a atenção. A quase totalidade deles justifica a explosão de violência como uma ação arquitetada por grupos criminosos que se aproveitaram de um fato isolado e até certo ponto rotineiro no dia a dia da capital inglesa: a abordagem policial infeliz a um imigrante.
O governo, pego de surpresa, buscou agir dentro da estratégia de conter a revolta pela via da segurança e, nesse sentido, agiu corretamente. Preservar a paz e garantir a integridade física das pessoas e das propriedades. Multiplicou a força de segurança nas ruas e prendeu milhares de suspeitos. Em suma, está trazendo de volta a ordem pública.
Normalmente, movimentos dessa ordem - coletiva - necessitam apenas de um evento que sirva como estopim para uma reação em cadeia, capturando sentimentos de revolta e geralmente se destinando a agredir o status quo.
Não faltaram expressões na mídia atribuindo a responsabilidade a gangues criminosas, a drogados e desocupados e, sutilmente insinuações racistas contra os imigrantes.
Talvez este seja o caminho mais fácil de enfrentar a equação. O mais difícil, no entanto, não perguntar quem é o responsável por estas manifestações agressivas. O mais importante é perguntar o porquê.
E aqui estão talvez algumas razões. O desemprego entre jovens é o mais alto em vinte anos. A política de segurança social no Reino Unido tem sofrido cortes e mais cortes dentro da política conservadora que tem acompanhado indiscriminadamente os governos trabalhistas e conservadores, como se não existisse real diferença entre eles.
Não é de hoje que se joga sobre os imigrantes - seja no Reino Unido como na Europa como um todo - a culpa pelo empobrecimento dos países do Norte. Muito mais perverso do que a Guerra Fria dos anos 70, hoje temos um tipo de conflito que expõe com todas as cores um certo xenofobismo político e religioso. O episódio das torres gêmeas passou a justificar o preconceito contra tudo que pareça estrangeiro.
Enquanto o Reino Unido se aliou à saga bushiana de gastar bilhões de dólares para caçar um homem, gastando ele mesmo bilhões de libras para manter tropas nos fronts de conflito a milhares de quilômetros de suas fronteiras, os cidadãos mais pobres e os imigrantes sofreram as consequências de uma política de redução de garantias sociais e uma crise econômica na qual ainda patinam.
O conformismo - mesmo em uma sociedade baseada em valores bem rígidos de educação e diplomacia - tem limites. Evidente que não podemos compactuar com atos de vandalismo e o estado de direito e as garantias individuais devem ser preservados. No entanto, a forma de enfrentá-los pode ser bem mais inteligente se se entender que direitos individuais e coletivos são também resultado de um modelo econômico que não crie desemprego, falta de perspectiva e queda de autoestima da juventude.
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