Vocação: somos todos chamados

Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda. Jo 15,16

Um dos temas mais complexos, mas igualmente essencial para vida do povo de Deus, é a compreensão do que seja vocação. A primeira coisa que vem à mente das pessoas é logo pensar em chamado para a vida religiosa através do ministério ordenado. Mas isso não é essencialmente verdadeiro. 

Primeiramente Deus é um ser relacional que deseja sempre ter intimidade conosco. Ele nos chama até mesmo antes da nossa consciência pessoal. Lembremos de Jeremias (1,4). Ao longo de toda a nossa vida, Deus continua insistentemente nos chamando: o Batismo é, por assim dizer, a nossa iniciação na fé e nos marca para sempre como filhos e filhas. Temos uma marca indelével de propriedade sagrada e amada por Deus. Independentemente do contexto em que estamos, somos pessoas especiais, chamadas a viver uma vida qualitativamente diferente. 

E assim vamos crescendo na fé e no conhecimento das coisas, da vida e de nós mesmos. O ambiente da comunidade eclesial nos oferece a constante disponibilidade de Deus, através dos sacramentos e do aprendizado de seu projeto de vida para cada um de nós. 

Vamos nos embrenhando pela vida, pelo conhecimento, pelos dons que vamos descobrindo no processo de auto-consciência e chegamos ao ponto de identificar o nosso jeito de nos sentirmos úteis, apaixonados pela vida e harmonizados. 

Mas será que é só isso que Deus deseja de nós? Certamente que não. É aí que entra - no plano eclesial - a reflexão sobre vocação. E ela começa quando questionamos Deus sobre o que Ele deseja que façamos para a alegria d`Ele. Não somos apenas recipientes. Precisamos identificar os caminhos de retribuir a Deus tudo de bom, de maravilhoso que recebemos de tantas pessoas, e em tantas inumeráveis situações. 

Este é o sintoma da reflexão vocacional: quando sentimos o desejo de ser o canal, o meio pelo qual tudo que recebemos precisa ser passado adiante porque percebemos que somos relacionais e que não podemos armazenar egoisticamente tanta bondade recebida. 

Nesse momento, Jesus nos chama. Quando já não aguentamos mais de tanto buscar o nosso lugar no mundo, o nosso papel, Jesus sabe que este é o momento adequado para nos dizer olhando nos olhos: Vem e segue-me!

Este chamado pode acontecer em uma circunstancia que ninguém pode prever. Mas que acontece, acontece! E cada um de nós precisa estar preparado! E esse chamado não pode ficar sem resposta. Eu fico imaginando o choque que os primeiros discípulos sofreram quando aquele homem se aproximou deles e os chamou para segui-lo. 

Seguir para onde? A vocação não é algo que vem com um plano de ação bem definido, com passos, estratégias e cronograma. A vocação é como uma deliciosa aventura. Você só precisa dizer sim. Eu acho muito interessante como Jeremias classifica a experiência do chamado de Deus: uma sedução! 

Aí você pensa: que coisa boa! Semana que vem eu vou pro Seminário, estudo alguns anos e vou me tornar um reverendo/reverenda! Negativo! Você se dispõe a seguir a Jesus e ele vai te levar para onde Ele sabe que você vai se sentir feliz, seja na vida secular seja na vida religiosa. A vocação não é uma circunstancia de massificação. Ela é pessoal e quando acontece o chamado, Jesus chama você pelo nome, a exemplo do chamado dos discípulos. 

Você pode ser chamado para diferentes ministérios. Na comunidade eclesial há muitos distintos ministérios e entre todos eles há um lugar especial para cada um de nós. Já afirmava o apóstolo Paulo essa diversidade de ministérios e a complementaridade entre eles, de acordo com os dons de cada um (1Co 12,4-6).

Agora pensemos na oportunidade que Deus dá a cada um de nós, nestes tempos desafiadores. Já pensou em como a Igreja necessita de pessoas com diferentes habilidades para ajudar o povo de Deus a cumprir com eficácia a sua missão? Administração, comunicação, louvor, ações evangelizadoras, ações sociais, ensino e catequese, oração, incidência pública, ....certamente seria muito extensa a lista. Dentre os muitos ministérios, encontramos um muito especial: o cuidado pastoral de um rebanho local que necessita que lhe seja assegurada a alimentação na fé. Este ministério é o ministério ordenado dos reverendos e das reverendas aos quais cabe a liderança espiritual da Igreja, reconhecida e instituída por ela. 



 uma história que eu li em um devocional publicado pela Sociedade de São João Evangelista. É  sobre o um rabino russo chamado Zusia. Um diaalguns alunos estavam falando com ele e disse que um primeiro lhe perguntou: "Rabi Zusia, tenho medo que quando eu aparecer diante do Santo dos Santos que ele vai me perguntar, 'por que você não teve a  de Abraão?' Um segundo aluno acrescentou: ' Eu tenho medo de que quando eu estiver diante do Santo dos Santosele vai me perguntar, 'por que você não teve a paciência de Jó?' E ainda um terceiro estudante disse: ' Rabieu tenho medo deque quando eu estiver diante do Santo dos Santos ele vai me perguntar, 'por que não teve a coragem de Moisés?'

Então perguntaram ao Rabino: 'Rabi, quando você comparecer diante do Santo dos Santos qual é o seu medo da pergunta que lhe será feita? O Rabino Zusia respondeu: ' quando eu aparecer antes diante do Santo dos Santos meu medo é que ele vai me perguntar, ' Zusia, por que você não teve a coragem de ser Zusia?'"

Atender ao chamado de Jesus para um ministério não representa assumir nenhuma máscara. Quando Jesus chama os discípulos e a cada um de nós, Ele nos chama como somos e com o que temos, todos com sombras e luzes, com virtudes e com defeitos, os quais Ele mesmo molda nossa vida para o serviço do povo de Deus. 

Na medida em que estamos vivendo um momento de renovação de nossa juventude diocesana e provincial, muitos deles podem estar se questionando sobre o seu chamado (como jovens) para melhor servir a Deus. Para muitos deles pode estar havendo um burburinho na cabeça e no coração a respeito de sua vocação (chamado). 

O fato de terem vivido a recente experiência do ENUJAB e dos encontros diocesanos e paroquiais, foi sentido como uma benção. E o foi realmente. O grupo se sentiu como grupo mesmo. Houve uma interação natural e amorosa em Brasília. Muitos se emocionaram e descobriram que tantos outros jovens  vivem o mesmo desejo de servir a Cristo. No meu sermão de encerramento eu perguntei se estavam dispostos a dizer sim a Jesus e ouvi uma sonora resposta: SIM! 

Jesus está olhando cada uma(a) de vocês nos olhos. E está dizendo: segue-me! Por que não refletir seriamente sobre isso? E ele está disposto a dar a vocês a orientação e a serenidade para discernir como viver a sua vocação pessoal. Vamos levar a sério este chamado? Você só precisa dizer como Samuel: fala Senhor que teu/tua servo(a) ouve!

++Francisco
Primaz do Brasil