A matemática perversa da Copa: quem ganha e quem perde

Conforme prometi em meu artigo anterior, me dedico agora a refletir sobre o impacto socioambiental das obras para a Copa do Mundo. Segundo estatísticas de organismos não governamentais, cerca de 250 mil pessoas serão removidas das áreas e entornos das arenas esportivas para a Copa. 
Estas remoções se dão normalmente contra famílias de baixa renda, situadas em áreas conquistadas por assentamentos e que dispõem - sob o ângulo da lei - de todas as condições para legalização de suas posses. Por outro lado, governos municipais, estaduais e governo federal não tem oferecido nenhuma garantia de que estas remoções sejam acompanhadas pelo direito de reassentamento adequado à realidade dessas famílias. Ou seja, num linguajar direto, o que está havendo é despejo puro e simples para a implementação de projetos urbanísticos para os quais as lideranças populares diretamente afetadas não foram consultadas devidamente. 
Os projetos de reforma dos espaços são geralmente apresentados à mídia como benéficos para a chamada mobilidade urbana, mas sem considerar o impacto demográfico e social dos mesmos. E, mais cruel ainda, não preveem, à guisa de serem considerados de interesse público, recursos para a justa indenização dos afetados. 
Assistimos aos tristes episódios de despejo da comunidade Maracanã, feito à força e com a desculpa de ser uma exigência da FIFA, uma mentira que o governo do Estado do Rio de Janeiro sustentou para justificar a remoção dos indígenas. 
E as remoções continuam, mesmo contra a vontade dos moradores. Um evento que durará apenas um mês porá no chão décadas de luta por condições dignas de moradia de famílias que trabalham para sobreviver. Isso sem falar em educação, saúde e transporte.
Que país é esse? As pessoas honestas que vivem de um salário ganho com suor serão obrigadas a se desenraizar para dar passagem a projetos que favorecem apenas a uma pequena parcela de privilegiados. Sim, porque a Copa das Confederações já é um aperitivo do que virá. Aos trabalhadores brasileiros está negado acesso aos jogos pelo alto custo das entradas nos estádios que seus próprios braços construirão! 
E o pior de tudo é saber que somente a iniciativa privada vai ganhar dinheiro com tudo isso. Isso me lembra uma velha história de um colega meu que estava irritado com um corretor de seguro de vida. Depois de tantas tentativas de se livrar do tal corretor, ele resolveu encarar um diálogo. Como matemático que era, o meu colega fez apenas três perguntas ao corretor: meu amigo, o governo 
ganha com o que tu vende? Sim, respondeu o corretor. Você ganha com o que vende? Sim, respondeu o corretor com cara de quem não estava entendendo aonde a conversa ia chegar. A sua empresa ganha com o que você vende? Sim, claro que sim! respondeu o já quase irritado vendedor. Então meu amigo, em matemática se sabe que não há ganho sem perda! Portanto quem banca o ganho do governo, da sua empresa e o seu sou eu meu amigo! A conversa encerrou por ali! 
Nesta Copa tem sido assim: o povo perde e o governo perde - só que não se deu conta disso ainda! Ganham as empreiteiras, ganham os cartolas e a grande mídia alimentada pelos vultosos patrocínios! Educação? Saúde? Ah! isso fica pra depois da Copa! Basta fazer um bom discurso eleitoral para alimentar a esperança dos desenraizados!

Comentários

Querido amigo D Francisco. Tens razão na colocação feita mas o pior de tudo no meu ponto de vista é o governo ser refém das empreiteiras isto proporciona uma série de injustiças sociais e a dependência total do governo dos grandes bilionários brasileiros
Abçs.
Eliseo Sena

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