Ano Novo: troque seu espelho por uma janela!


Neste recesso de fim de ano, aproveitei para realmente descansar. Estava precisando de verdade desconectar um pouco e refletir. Longe do escritório e usufruindo de momentos de relax com a família. Fazendo coisas triviais, dormindo bem e esquecendo um pouco os papéis institucionais. Ficando um pouco "sumido" das redes sociais e evitando os emails que evocam compromissos, tensões, entre outras demandas.
Percebi que neste curto espaço de tempo necessito fazer uma reviravolta na minha cosmovisão. E chego à conclusão de que se podemos realmente virar o ano com um compromisso de vida renovado, preciso trocar meu espelho por uma janela. Explico: o espelho sempre nos revela a nós mesmos, nosso rosto, nossa aparência e nossos estresses. Há pessoas que estão escravizadas pelo espelho. Umas porque precisam se enxergar a si mesmos e se admirarem à exaustão. Numa sociedade onde a estética é sempre uma regra áurea para o que se quer entender por satisfação, o espelho se torna um parceiro da angústia ou do prazer narcísico. Angústia para o que se sentem inferiorizados e prazer para os que estão dominados por suas próprias máscaras. 
As janelas nos projetam para fora, para o mundo e para a vida. Quando se olha através das janelas a gente ver um mundo numa dinâmica que nos absorve e que nos convida a interagir com ele. A gente se "esquece" da gente. A gente se torna um ser seduzido pela interação com este mundo para além da gente mesmo, e com o qual sentimos o desejo de interagir. Se o que vemos nos agrada, sentimo-nos agradecidos a Deus. Se o que vemos nos desagrada, pulsa em nós o desejo de transformar as coisas e tocarmos a realidade com nossas mãos. 
Em outras palavras, o espelho estreita e as janelas ampliam. Pergunto a você meu irmão e minha irmã: em 2013 terás a coragem de olhar através das janelas? Ou continuarás preso pela lógica dos espelhos? 
Que 2013, para além das palavras de ordem estereotipadas que costumamos ouvir das pessoas (tipo: que o mundo tenha mais paz, mais amor, mais isso ou aquilo) represente uma oportunidade de ampliarmos a nossa "enxergância" (neologismo de um querido colega reverendo). 
O mundo não terá paz, nem amor, nem nada de novo além daquilo que já tem se as pessoas continuarem a ter apenas o espelho como referencial. O mundo poderá, sim, se aperfeiçoar, se as pessoas saírem de frente de seus espelhos e se voltarem para as janelas! Elas nos projetam sim para fora e para a ação! 
Um Feliz 2013 a todos os meus amigos e amigas. Aos colegas bispos, ao clero e ao povo da DSO aos quais agradeço o carinho e a paciência para com este pastor, ao povo e clero de nossa IEAB e a todas as pessoas com as quais eu tenho uma relação de amizade, carinho e partilha de vida. Estando estas pessoas longe ou perto,  não importa, o mais importante é que se tornem pessoas capazes de trocar espelhos por janelas! 
Um agradecimento especial a Talita, companheira de todas as horas! Que ela e eu possamos sempre continuar olhando através das janelas.

+Francisco

Os Santos Inocentes continuam a existir!


Refletindo neste dia em que se celebra os Santos Inocentes, não posso deixar de reverenciar a memória de todas as crianças e adolescentes vítimas de todas as formas de violência.
Vimos neste ano cenas chocantes de crianças assassinadas pelos opressores na Siria, na Palestina e na África. Vimos uma adolescente atingida pelo Taliban, pelo simples fato de defender o direito de meninas frequentarem uma escola. Vimos o massacre de crianças en Newtown indagar-nos sobre até onde se permite a liberdade da loucura, numa sociedade onde armas são artigos de fácil aquisição. E recentemente temos a luta pela vida de um menina de dez anos atingida por bala perdida no Rio de Janeiro.
Fica então a pergunta: como se pode permitir que nossas crianças e adolescentes continuem à mercê dos distúrbios de uma sociedade que deveria protege-las?
Violência com armas constitui a segunda maior causas de morte ou lesão grave aos menores.
Fico triste pelo fracasso do esforço em se acordar um Tratado Internacional sobre comércio de Armas, buscado pela ONU. Apesar do esforço ecumênico, de Ongs, e de pacifistas, a insensibilidade dos grandes produtores de armas - os Estados Unidos à frente - inviabilizou qualquer avanço para além dos discursos. Apesar de se multiplicar discursos sobre o tema, não se consegue passar para a ação concreta.
Até quando, diante da ineficácia dos governos e o afã por lucros ou mesmo conflitos alimentados pela lucrativa indústria de armas exporão o elo mais frágil de nossa sociedade?
Continuarão nossos inocentes a sofrerem as consequências disto? Continuaremos a assistir o clamor das mães de Ramá? (Mt 2:18)
Que os santos inocentes velem por nós! Como Igreja, devemos assumir o compromisso de proteger os mais frágeis. Que o nosso clamor não seja apenas regado pelas lágrimas de dor pelas inocentes vitimas da violência institucionalizada em nossa sociedade. Que nosso clamor seja como os dos profetas e profetizas: cheio de vigor e de esperança contra os poderosos que assistem insensiveis às tragédias que vitimizam crianças e adolescentes.
Que a memória dos inocentes da palestina do séc I bem como de todos aqueles que perderam suas vidas em razão da violência possa estar sempre presente em nossa mente e coração, para não cairmos na insensibilidade de acharmos que os eventos de Newtown, Palestina, Pakistão e em todos os lugares do mundo são estatísticas apenas desconfortáveis!  

Pra que pressa? Cante com as estrelas, se puder!

Nestes tempos natalinos é possível observar-se uma característica muito comum nas pessoas: a pressa. Pressa para que o ano termine logo. Pressa para cumprir os compromissos sociais. Pressa para chegar antes de outras pessoas aos artigos que serão os presentes de Natal para a família e os amigos. Pressa pra chegar logo ao destino das férias. Enfim, parece que o relógio das pessoas aumenta a velocidade fazendo-as escravas de um ritmo que consome as energias emocionais e se tornam fonte de desconfortável stress.

Enquanto isso, no ventre de uma Maria, cresce um menino que chegará a um mundo tenso de correria também por causa de um tal de censo que o Imperador determinou a todos os seus súditos (tanto os de boa  quanto os de má vontade). Também ai temos a pressa do sistema, querendo saber quantos são os contribuintes para engordar o caixa do Império e alimentar o poder e o controle sobre as pessoas.

José e Maria foram apanhados por este turbilhão. Tiveram que sair praticamente de uma banda para a outra do país. Sofreram as consequências de uma migração forçada. O furdunço era tão grande que nem lugar para se hospedar tiveram. Essa é  a saga do Império: desenraíza as pessoas, tornam-nas migrantes em seu próprio ser.

Mas ali estava o Menino que devia nascer exatamente para contradizer toda essa lógica maluca de um sistema que trata as pessoas como engrenagem. O sistema foi tão nefasto que nem um lugar mais digno para o bebê nascer proporcionou.

Estavam ali Maria, José, o Menino e os animais. Tendo o céu por teto. Isso me lembra e muito os tetos de tantos sem-teto que temos hoje me nosso país. Só que o Império não recebeu a Glória! A Glória foi destinada aquele menino e à sua abençoada família. Não foi para Cezar que os céus cantaram. Não foi para Cezar que os pastores destinaram o cântico de alegria. Ali, longe do burburinho, houve paz e quietude. Enquanto os agentes do Estado se debruçavam ávidos sobre números em suas tabuletas, os bilhões de corpos celestes cantaram que finalmente a nova criação chegou.

Minha intenção nesta reflexão é perguntar sobre a qualidade de que Natal que a gente precisa viver. Certamente não é o cenário das lojas apinhadas de gente se batendo. Nem o das pessoas estressadas correndo atrás do tempo para saciar o deus mercado. Eu preferiria que pudéssemos viver o Natal da comunhão com Deus de verdade. O Natal da comunhão com a Natureza e com um Menino que sorri livremente, sem amarras, irresponsável até diante de um sistema que já queria contá-lo em suas estatísticas!

Naqueles tempos, longe da Jerusalém cheia de luzes e de palácios iluminados, uma família recebia a vênia de toda a Criação. Num lugar onde as luzes celestes podiam ser vistas sem serem ofuscadas pelas luzes da cidade. Onde uma criança anarquicamente ria daqueles que se achavam os donos do mundo.

Que tal vivermos um Natal de mergulho nesta liberdade que Deus nos dá através de Jesus menino? E, se porventura, o stress te dominar nestes dias, pare, sacuda a cabeça e diga a si mesmo: ei! para que tanta correria se posso aproveitar melhor a festa de forma e me sentir mais gente, com mais fé e louvando o Deus Emanuel! Se junte às estrelas e cante de alegria ao Deus amoroso que tanto nos quer bem!

+Francisco, Santa Maria

Um Natal diferente!

E depois do terremoto um fogo; porém também o SENHOR não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada.1 Reis 19:12


Tenho refletido ultimamente sobre o impacto dos festejos natalinos na vida das pessoas de maneira geral. Numa sociedade cada vez mais dependente do consumo e da aparência (meios pelos quais o mercado se alimenta) este período do ano é o de maior concentração de tensões psicológicas que passam quase despercebidas por alguns.
Poucas pessoas - certamente vistas com estranheza pela maioria - conseguem escapar ao frenesi desta estação que tem mais a ver com rituais sociais do que propriamente com o ilustre aniversariante: o próprio Deus em forma de criança.
Estava conversando com uma pessoa por estes dias e o que ouvi dela me inspirou escrever umas linhas sobre o Natal. Esta pessoa me dizia que estava com a agenda cheia de compromissos e com uma lista de compras que não sabia como ia dar conta. Ai eu perguntei a ela: você precisa mesmo cumprir à risca toda essa agenda? você precisa mesmo se sacrificar financeiramente para cumprir expectativas de outras pessoas? Nisso tudo onde está o seu bem estar espiritual?
Não preciso dizer que ela me olhou com olhos de espanto e tratou de desconversar sobre as respostas. Não a censurei por isto. Nem queria causar culpa nela, apenas levá-la a refletir sobre o valor agregado, em termos espirituais, que ela poderá contabilizar quando ultrapassarmos a barreira do primeiro dia do novo ano.
Por isso, me proponho aqui a provocar uma reflexão sobre como poderiamos celebrar um Natal diferente. Um Natal que nos traga o encontro não somente com  o Menino Deus mas também conosco mesmos.
Algumas dicas podem ser úteis. Que tal desenvolver desde agora em diante o hábito de gastar dez minutos por dia desligado de tudo, em um ambiente relaxante, conversando com Deus sobre o que é mais importante para a nossa vida?
Ou então, que tal reservar tempo igual diariamente para avaliar em que avançamos ou não na nossa maturidade espiritual. Deus é uma realidade presente na nossa vida ou apenas quando estamos em apuros? Nos bons momentos atribuímos a nós mesmos os méritos,  esquecendo de Deus? Conseguimos enxergar o que é espiritual mesmo no meio do burburinho da vida material? 
Até mesmo, se você não sente a coragem necessária para realizar as reflexões acima propostas, pode reservar estes mesmos dez minutos para uma leitura de um Salmo, ou mesmo os relatos bíblicos do Nascimento do Salvador. Pode ser por partes. Não precisa querer abarcar tudo de uma vez. A Palavra de Deus nos atrai se nos abrimos para lê-la com a devida atenção! Eu tenho que certeza de que este passo pode ajudar você a dar outros passos. 
Faça isso e verá o quanto avançará. Mas lembre-se: é importante perseverar, criar o hábito, disciplinar-se! E lembre-se: Deus nos quer proporcionar paz e alegria, aquela mesma que fez toda a Criação e os céus cantarem o Glória in Excelsis Deo. E tenha certeza que ninguém canta tal canção com verdadeira alegria estando sob tensão e stress! 
Não deixe a correria, o stress e as expectativas sociais deste tempo retirarem de você a singeleza da comunhão com Deus e consigo mesmo! Vá ao encontro do Menino Deus em sua santa e humilde manjedoura!

+Francisco