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Mensagem de Quaresma

Queridos irmãos e queridas irmãs

E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás. E vivia entre as feras, e os anjos o serviam.
Marcos 1:13

Semana que vem estaremos iniciando nossa jornada litúrgica como Igreja pela quadra da Quaresma. Este é um tempo especial para todos nós, povo e clero, na compreensão daquilo que Deus tem revelado a nós através de seu filho Jesus Cristo. O texto de Marcos 1:9-13 termina com a descrição da experiência de deserto de Jesus. A Igreja precisa viver com mais autenticidade o seu próprio deserto. Mas o que é viver o deserto? Alguns acham que deserto representa apenas coisas negativas: aridez, perigos, isolamento. Não costumamos gostar de desertos. Tive uma experiência há 13 anos atrás, durante o Curso Palestina de Jesus, em Israel, na qual fomos conduzidos pelo nosso professsor a uma experiência de oração no deserto. Fomos pela manhã cedo, antes do sol sair e ali ficamos até os raios de sol ficarem fortes o suficiente para olharmos aquela paisagem e orarmos um pouco. Foi algo inesquecível para mim. Ali estava eu sozinho (embora com a sensação de segurança pelos outros que estavam também nesta experiência) um imenso deserto e um céu por cobertura numa conjugação física singular. Orei a Deus e pude sentir como nós somos relaxados em nossa vida devocional como Igreja.
O deserto nos chama para a reflexão. O deserto nos impele para dentro de nós mesmos. E é neste mergulho que podemos encontrar o que de mais extraordinário existe: Deus mesmo como fundamento mais básico do nosso existir. No nosso interior mais profundo é que se travam as batalhas mais ferrenhas – vejam as tentações de Jesus. Ele as venceu, pois ouviu a voz mais profunda de Deus mesmo em seu ser. Ele rejeitou viver a glória passageira da excentricidade. Ele rejeitou o imediatismo da materialidade. Ele rejeitou a submissão fácil.
A Igreja em nosso dias tem sido tentada a ser submissa aos poderes que escravizam a humanidade. Igualmente tem sido tentada a se submeter ao imediatismo materialista de um sistema que seduz as pessoas a só consumir. Igualmente tem sido tentada a ser um palco para excentricidades cativando audiências, mas sem comprometimento pessoal com Jesus Cristo.
Se sucumbirmos a estas tentações estaremos inclinados a não sermos relevantes para o mundo. Aliás, não faltam vozes a proclamar que a Igreja vai acabar.
Precisamos imitar o Cristo. Não podemos esmorecer. Vamos aproveitar esta Quaresma para orarmos mais. Para refletirmos mais sobre a missão que Deus nos confiou. Vamos deixar que no mais profundo do nosso ser a voz de Deus seja ouvida com clareza e nos faça resistir às tentações. Façamos do deserto uma oportunidade de encontro profundo com Aquele que é o fundamento do nosso ser. Que o deserto nos renove e nos faça caminhar com Jesus proclamando as Boas Novas, ainda que em conflito com os poderes deste mundo. E que nossa proclamação seja inteira: coração, mente, pés e mãos. Vamos fazer com que as pessoas renovem a sua confiança em Deus e possam viver a modernidade com justiça, respeito e cuidado com o mundo e com seus semelhantes. Lembremos que a Igreja (assim como as pessoas) que vive para si mesma faz como o servo que enterrou seu talento.
Uma abençoada Quaresma a todo(a)s!

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