A presente crise econômica que tem causado apreensão nos mercados e nos
governos da Europa, Ásia e Estados Unidos se constitui numa oportunidade
única para os líderes mundiais repensarem o modelo capitalista que
ainda é hegemônico no mundo.
O que mais me chama a atenção - e tenho dito isso em todas as audiências
para as quais tenho tido a oportunidade de falar - é a submissão
absoluta de Estados aos executivos e gerentes financeiros. Quando digo
isso me refiro claramente aos magnatas e investidores que se arrogam no
direito de decretar, como nos circus romanus, a vida e a morte de
bilhões de pessoas. Ao invés de indicadores para cima ou para baixo -
gesto dos imperadores para salvar ou não a vida dos derrotados nas
arenas - a arma mais temida hoje é o teclado de lap tops que determinam a
mobilidade incontrolada de capitais ao redor das mesas de apostas -
bolsas - pelo mundo.
Recordo que na crise de 2008, cantada e decantada como a maior da
história recente do capitalismo, os governos e bancos centrais fizeram
circular cerca de USD 3 trilhões para salvar empresas financeiras e
salvar a cara do modelo. Agora a dose se repete e, segundo alguns, já se
evaporou cerca de USD 1 trilhão com socorro a bancos e instituições
financeiras.
Um a um, vão se sucedendo as crises dos sistemas financeiros da Europa e
nos Estados Unidos e na China. E qual a solução? Claro, os sapienciais
magnatas, vão dobrando os joelhos de governos e de povos definindo
operações de salvamento de instituições financeiras. A conta? Bem, essa é
debitada na sociedade de trabalhadoras e trabalhadores que vem seus
direitos sociais confiscados em nome de uma tal estabilidade e/ou
governabilidade.
A coisa está tão feia que até nos Estados Unidos está se vivendo um
movimento que lembra a luta pelos direitos civis na década de sessenta. A
Grécia está a mais de mês sob intensa pressão de movimentos da
sociedade que expõe a sua insatisfação com um governo que assinou um
cheque em branco para evitar o tal default.
Mas onde começa a crise? Com toda a vênia aos meus amigos especialistas
em Economia, afirmo que a crise tem sua causa na fragilização do Estado e
da Política em favor de um liberalismo econômico que transferiu ao
invisível mercado o poder de regrar a vida das sociedades.
Este filme, por incrivel que pareça já passou algumas vezes na História e o final não é nada feliz.
Não se pode deixar o galinheiro ser regido por raposas. Não sobrará
nenhuma galinha. Ou se mudam os fundamentos políticos da sociedade,
priorizando o trabalho - que afinal é o que produz riqueza - ou o
capital destruirá de vez a possibilidade de se construir uma nova
sociedade.
Relembro aqui as palavras do Filho de Deus: Não podeis servir a dois
senhores! Ou servis a Deus ou às riquezas! Aliás, para nós brasileiros,
muito recentemente refletimos sobre isso na Campanha da Fraternidade
Ecumênica do ano passado.
Mais uma vez a Igreja está diante de um grande desafio: ao invés de discutirmos e pelearmos por
questões ligadas à moral e a costumes, devemos enfrentar a falácia
daqueles que pensam só na prosperidade e na perfeição de um mercado que
se compõe apenas de papéis e gráficos reluzentes nas telas das bolsas de
valores (cassinos?) do mundo. A Economia precisa se revestir de
humanidade!