Um jogo sem graça: o que é afinal segurança pública?

Na operação policial que culminou com a prisão do traficante Nem, chamou a minha atenção uma frase de um policial gritando aos microfones da TV: E aí jogador! Perdeu!! Eu até fiquei esperando aparecer na tela a famosa frase de quem joga vídeo games em computador: você venceu!
Nada mais natural numa operação dessa ordem se ouvir palavras de ordens dos policiais caracterizando uma catarse pelo sucesso de sua ação.
No entanto, e para a nossa reflexão, caberia uma análise do conteúdo da expressão. A Segurança Pública não pode ser um jogo, onde se possa ter ganhadores de um lado e perdedores do outro.
E aqui levanto algumas questões que julgo relevantes na discussão:
A Segurança Pública é para garantir a manutenção de um jogo midiático entre bandidos e sociedade? Cada lado exibindo sua força que captura a atenção do público? Caracteriza-se ela por ações dignas de seriados policiais criados para divertir o público e levá-lo à sensação de que o bem sempre triunfa sobre o mal?
Certamente que as respostas para as perguntas acima - se refletidas à luz de um projeto de sociedade democrática e civilizada - são negativas. Ninguém ganha neste pseudo-jogo. Segurança Pública não pode se restringir somente à ação repressiva do aparelho de Estado contra o crime. Ela tem que ser um conjunto maior de ações integradas que sirvam para garantir que a sociedade não se sinta ameaçada na garantia de seus direitos fundamentais. Ela precisa contemplar ações preventivas que sempre devem estar articuladas com outras políticas públicas.
Quando Segurança Pública precisa se expressar apenas por seu aparato policial militar, com ações repressivas para conter a prática de crimes, é sinal de que o Estado está ausente em outras áreas. É sinal evidente da fragilidade de um Estado que não consegue cumprir o seu papel de promotor da qualidade de vida da sociedade.
Já se sabe que o tráfico de drogas constrói seu domínio através de duas frentes: uma é o consumo - maiormente pago pelas classes mais abastadas - e a outra é a fidelização das comunidades pobres mediante garantia de alguns dos seus direitos básicos e arregimentação de quadros, substituindo a presença do Estado.
Portanto, o problema é mais estrutural e menos do que uma leitura maniqueísta entre jogadores do bem e do mal. A frase do referido policial é apenas um sintoma de como alguns agentes públicos encaram o que seja realmente Segurança Pública!
Seria muito bom, que para além das prisões de chefes do tráfico, se pudesse retirar deste mesmo tráfico o poder de manipular comunidades. E como se faz isso? Com políticas de fomento à qualidade de vida do povo. Enquanto existir o abismo social e econômico entre Rocinha e Gávea, existirá a fabricação desse jogo entre Estado e tráfico. Haverão outras operações militares e outros jogadores travarão uma batalha que ajudará somente numa coisa: elevar os índices de audiência da tv. Mas aos Josés e Marias da Rocinha e de outras favelas restarão fugir dos tiros e dos confrontos entre bandidos e policiais. E torcer para que estas balas não atinjam seus filhos e filhas! Um verdadeiro jogo sem graça.

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