quinta-feira, maio 25, 2006

"A gente aprende rápido aqui"

Essa frase talvez venha se tornar uma emblemática afirmação para caracterizar o baixo gráu de estima que tem hoje uma das instituições que deveria se constituir num sólido alicerce da democracia.
Foi dita pelo advogado Sérgio Wesley da Cunha, diante da CPI do tráfico de Armas, ao ser confrontado com a seguinte frase de um deputado: "você aprende rápido com a malandragem".
Não me cabe aqui defender o advogado por suas vinculações aparentemente mais que profissionais com o crime organizado. Nem justificar a atitude do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP).
Mas no mínimo é estranho que uma Casa Legislativa com a importância que tem, após ter absolvido vergonhosamente parlamentares acusados de corrupção, tenha ainda algum arroubo de pontificar diante de terceiros sobre prática de malandragem. As recentes acusações de um escândalo de desvio de verbas públicas atingem quase 60 parlamentares e, se brincar, todos acabarão sendo absolvidos também.
Ao responder que "aqui se aprende rápido", o advogado jogou na cara dos parlamentares uma pecha que poderia muito bem ser rechaçada com toda a veemência de um Poder Constitucional exemplar. Mas parece que esse exemplo não existe nessa legislatura. A prisão do advogado acabou sendo apenas uma foto conquistada como uma vitória de Pirro.
As implicações da atitude do advogado vão lhe custar um longo e desgastante processo por desacato à honra de servidores públicos no exercício da função. Mas isso tudo seria evitado se um grupo de maus parlamentares, escolados e acostumados à prática desonesta no trato da coisa pública, não dessem um péssimo exemplo de malandragem.
Esse Congresso realmente superou todas as expectativas quanto à qualidade de seus quadros. Eu lamento por aqueles que na condição de representantes do povo tiveram suas imagens salpicadas pela lama de seus pares. E lamento ainda mais pelo povo brasileiro que não merece ter sua confiança desrespeitada de forma tão cínica!

segunda-feira, maio 22, 2006

Lembo, Limbo e Elites brancas

Quem leu a entrevista do governador Cláudio Lembo à Folha e teve o cuidado de perceber o texto oculto do seu desabafo, vai chegar à conclusão de que ele é o retrato de um homem amargurado pela solidão do poder, experimentando um limbo ao qual poucos sobrevivem. Aliás, ele afirma isso categoricamente em uma curta resposta, mas a espalha sutilmente pelo resto da conversa.
Alçado ao governo do estado por conta da candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência, Lembo teve o presente de grego que ninguém deseja. Literalmente foi investido da função de almoxarifar o estado até que o novo governador receba de suas mãos a chefia do Palácio dos Bandeirantes. E nesta função, foi abandonado por seus aliados, inclusive os de seu próprio partido. Estão de olho sim em outro Palácio e com outras prioridades.
O desabafo do governador traz consigo talvez uma das frases que mais vão incomodar seus aliados durante a campanha eleitoral. A de que a elite branca é a grande responsável pelo que anda acontecendo no País. Se ouvíssemos essa frase da boca de um militante do PSTU, ou do PSOL ou de outras agremiações mais à esquerda, talvez ela não tivesse o efeito que teve. Mas dita por um representante de um partido reconhecidamente identificado com as elites, ela assume outra conotação: a de que Cláudio Lembo chegou ao limite da compreensão da fenomenologia social brasileira.
É verdade sim que a elite branca do Brasil tem inteira responsabilidade pela configuração do conflito social que hoje vemos. No país da Daslu, de Caras, dos domingos televisivos que bestializam a inteligência de nossa gente, é difícil não se aceitar que a miséria e a exploração não tenham responsáveis, como se fora construida unicamente por uma seleção natural.
A crítica do governador foi ácida e emotiva. E verdadeira porque quando nos encontramos em situações limites, o inconsciente aflora com toda força, sem rodeios e sem censura. A solidão do poder mostra o quanto ele é ilusório e insuficiente para acalmar a consciência.
Agora seus aliados vão querer silenciá-lo, cercá-lo de mimos para evitar que ele estrague a cena. Em uma abordagem simbólica da fala do governador, percebemos que ele agiu como a bruxa do mito de Parsifal: expôs sem nenhuma máscara a verdade que é escondida pelas conveniências.
Com certeza ele vai ser cobrado por esse "ato falho". Sofrerá o "limbo" no qual seus aliados vão colocá-lo, torcendo para que o calendário corra o mais rápido possível. O problema é se o calendário correndo rápido vai dar para se alcançar o que desejam. As dondocas e os bebedores de conhaque Henessy é que precisam experimentar um limbo ético que os acordem de vez, porque o pesadelo apenas começou. Nada contra a boa bebida e boa comida, mas seria melhor que viessem acompanhados de um senso de solidariedade com os excluidos desse Brasil.