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Mostrando postagens de Maio, 2006

Eleições 2006: Crônica anunciada

Chegamos a junho. Isso significa que estamos a exatos três meses da eleição presidencial. O quadro que tracei desde o início do ano parece alterado até para mais com relação ao que é probabilisticamente esperado. Isso significa que se nenhum fato fora de controle acontecer, o Presidente será reeleito com relativa facilidade. Até com a possibilidade de ganhar no primeiro turno. Além das estratégias adotadas desde o inicio do ano, conforme demonstrei em artigos anteriores, surgiram novos fatos que corroboram a reeleição e o mais forte deles é a incapacidade de a oposição construir uma agenda política consensual e programática. As divergências de egos nos arraiais tucanos e peemedebistas por si só ajudam o Presidente a continuar navegando em céu de brigadeiro. As CPIs, convertidas em palanque perderam a credibilidade que poderiam ter tido se adotassem realmente uma metodologia mais investigativa dos fatos, do que uma vitrine de ávidos por mídia. Some-se a isso o golpe moral do Con…

"A gente aprende rápido aqui"

Essa frase talvez venha se tornar uma emblemática afirmação para caracterizar o baixo gráu de estima que tem hoje uma das instituições que deveria se constituir num sólido alicerce da democracia. Foi dita pelo advogado Sérgio Wesley da Cunha, diante da CPI do tráfico de Armas, ao ser confrontado com a seguinte frase de um deputado: "você aprende rápido com a malandragem". Não me cabe aqui defender o advogado por suas vinculações aparentemente mais que profissionais com o crime organizado. Nem justificar a atitude do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). Mas no mínimo é estranho que uma Casa Legislativa com a importância que tem, após ter absolvido vergonhosamente parlamentares acusados de corrupção, tenha ainda algum arroubo de pontificar diante de terceiros sobre prática de malandragem. As recentes acusações de um escândalo de desvio de verbas públicas atingem quase 60 parlamentares e, se brincar, todos acabarão sendo absolvidos também. Ao responder que "aqu…

Lembo, Limbo e Elites brancas

Quem leu a entrevista do governador Cláudio Lembo à Folha e teve o cuidado de perceber o texto oculto do seu desabafo, vai chegar à conclusão de que ele é o retrato de um homem amargurado pela solidão do poder, experimentando um limbo ao qual poucos sobrevivem. Aliás, ele afirma isso categoricamente em uma curta resposta, mas a espalha sutilmente pelo resto da conversa.
Alçado ao governo do estado por conta da candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência, Lembo teve o presente de grego que ninguém deseja. Literalmente foi investido da função de almoxarifar o estado até que o novo governador receba de suas mãos a chefia do Palácio dos Bandeirantes. E nesta função, foi abandonado por seus aliados, inclusive os de seu próprio partido. Estão de olho sim em outro Palácio e com outras prioridades.
O desabafo do governador traz consigo talvez uma das frases que mais vão incomodar seus aliados durante a campanha eleitoral. A de que a elite branca é a grande responsável pelo que anda acontecendo…

Cadê a Sociedade Civil?

Após o terror do fim de semana, o que estamos assitindo agora é uma corrida atabalhoada da classe política para discutir medidas mais rigorosas para evitar que os bandos do crime organizado ajam com a liberdade que tem agido.
Por seu lado, os governos ficam a discutir quem tem mais poder de controle sobre a segurança pública. Razões de ordem federativa são apontadas para justificar "orgulhos" políticos feridos, em pleno jogo de cena eleitoral.
Ontem à noite o governador de São Paulo declarou abertamente que os atentados e rebeliões tinham acabado, e que tudo tinha saido muito bem, conforme o que fora planejado. Desconheceu completamente o fato de que mais de 80 vidas foram perdidas, entre policiais, criminosos e civis.Para isso teve apenas uma insensivel definição: fatalidade!
É dificil enfrentar essa situação sem nos conscientizarmos de que há um aboluto descaso com a sociedade civil.
Pelo preceito constitucional, a Segurança Pública é dever do Estado e direito e responsabilida…

A Falência da Segurança Pública no Brasil

Os lamentáveis atentados do fim de semana contra o frágil sistema de segurança do Estado representam um sério alerta para os governos no que tange à sua responsabilidade com a segurança pública. Em uma escalada ousada e sem precedentes em termos de quantidade de ações e flexibilidade física das mesmas, ocorrendo ao mesmo tempo em diversos lugares, o crime organizado deu mostras do que realmente é capaz.
São Paulo e outros estados experimentaram cenas que mais pareciam estar ocorrendo em zonas de conflito como Bagdá. São mais de 52 mortes contabilizadas, igual número de feridos e rebeliões em vários presídios.
A constatação previsível é de que o aparelho de Estado não está preparado para enfrentar ações articuladas e, nessa perspectiva, transmite um perigoso sintoma de insegurança aos cidadãos que cada vez mais desembolsam recursos para pagar segurança privada, ramo que tem crescido geometricamente nos últimos anos.
Torna-se urgente uma séria e eficiente política pública de segurança que …

Nacionalismo de Ocasião

A subida de tom nas diversas falas que estão interagindo no caso da nacionalização do gás, parece estar criando um clima de guerra fria entre o Brasil e a Bolívia. Evidentemente que as falas representam distintos interesses, cada qual com seu ponto de vista voltado para o próprio umbigo.
Por um lado, o Governo Morales exerceu legitima autonomia de um Estado soberano que tem o direito de tratar como entende melhor a gerência de recursos naturais sob sua jurisdição política. E o fez de olho no processo constituinte que se avizinha e no qual pretende reconstruir as bases do Estado boliviano. A prova disso é que a medida conta com apoio da grande maioria dos seus eleitores, aliás mais do que dos seus eleitores, pois alcança cerca de 70%, em média, contra os 54% que nele votaram.
Por outro lado, o Governo brasleiro, que adotou desde logo uma postura conciliatória, fiel à sua história de conciliação e diálogo como método de enfrentamento de divergências diplomáticas. A questão em foco, por s…

Legitimidade Zero

As recentes atuações da Polícia Federal e a descoberta da chamada Operação Sanguessuga revelam que vivemos uma crise institucional que já extrapolou todos os limites de tolerabilidade. Mal saímos do espetáculo do mensalão, agora surge o espetáculo dos sanguessugas. Um rastro de rapina da República que pode envolver quase um quinto do Parlamento. Pelo menos 62 parlamentares são citados nas investigações. E ainda ouvimos um senador da República declarar em público que o Congresso não pode ser desmoralizado por um cidadão que tem se furtado a comparecer à CPI que preside. Ilustre senador, este Congresso já está desmoralizado. Vivemos uma institucionalidade do faz de conta, como bem disse o Ministro Mello, em sua posse como Presidente do TSE. Até quando neste país o dinheiro público vai ser apropriado em detrimento dos excluidos? Até quando essa briga de egos políticos vai manipular a opinião pública, fazendo da mídia um palco para uma péssima versão de um Estado Espetáculo? Não…

As lições de Garotinho

Se se confirma a suspenção da greve de fome de Garotinho hoje, conforme se anuncia, algumas lições amargas serão tiradas pelo candidato. A primeira delas é de que ela foi precipitada. Estranhamente, o gesto do ex-governador não condiz com seu curriculo acostumado a confrontos e acusações. Sua trajetória é de rompimentos e mudanças de sigla que, mais ou menos, o manteve no cenário político nacional até hoje. A segunda é de que definitivamente ele comprometeu sua candidatura. O gesto radical, de defesa da honra, não veio acompanhado de esclarecimentos convincentes de seus laços com financiamento político viciado. A tentativa de comprometer internacionalmente o processo político brasileiro foi um tiro no pé. E a última lição amarga é de que não se enfrenta a mídia sem munição adequada. Faltou inteligência quando escolheu a grande mídia como alvo de seu protesto. Porque nem a pequena mídia ficou do seu lado. Pelo contrário, seu gesto foi caricaturado, achincalhado - até de form…

Lula X Morales: um teste da Política Externa brasileira

A estatização dos recursos naturais na Bolivia era uma crônica anunciada desde que Evo Morales conquistou a Presidência através de uma acachapante vitória. A questão era quando ele iria agir. Eleito sobre uma pauta de reivindicações nacionalistas de uma nação marcada pela expropriação de seus recursos naturais, sem nenhuma contrapartida social, responsável pelos maiores índices de pobreza da América do Sul, Morales precisava de um gesto público de soberania. Sobrou para a Petrobrás. E para o Governo Lula. O desfecho desse incidente não será imediato. Para muitos que esperavam medidas retaliatórias do Governo brasileiro o episódio promete ser longo e amplamente negociado. Lula não optará pelo confronto, pois sabe que esse é um campo minado. Ao invés, buscará construir uma saída política conjugada com outros aliados no continente. Afinal, Morales precisa do apoio de aliados políticos como Chavez, Kirchner e o próprio Lula, de quem recebeu efusivo apoio.Nenhuma ação unilatera…