sexta-feira, janeiro 06, 2006

A Estratégia Política do Presidente: Segundo Movimento

Um dos recursos mais bem explorados pelo Presidente é o de um marketing bem construído. Ele será mais uma vez um importante movimento de peça para a campanha de reeleição. Aliás, a crise política já gerou uma propaganda do governo na direção de atacar o argumento da oposição, segundo o qual, o Presidente padece de imobilismo. Agricultura familiar, Bolsa família, Prouni, Comércio Externo já tem sido objeto de matéria publicitária oficial, destacando os avanços nessas áreas e sempre comparando essas realizações com "governos anteriores", deixando à oposição o ônus de se justificar discursivamente. O poder de fogo da comunicação oficial está explicita na PLO com um acréscimo de 14% na dotação para Política de Gestão de Comunicação do Governo. Isso somente no que tange à Presidência da República, sem contar com as dotações setoriais dos demais órgãos da administração federal. Ou seja, a oposição vai ter que espernear diante de uma agressiva política de propaganda feita dentro da lei, como recursos nada desprezíveis. Outro importante ingrediente desse movimento é a relação com a Imprensa. Somente nos últimos dias, além do próprio Presidente - que falou para uma audiência nacional do Fantástico - seus assessores mais imediatos tem tido uma postura clara de aproximação estratégica com a Imprensa, afirmando peremptoriamente que o Governo quer dissolver o clima de tensão com os principais órgãos da mídia, deslocando o foco em torno dos escândalos e explicitando mais as políticas oficiais. Para tanto, é importante destacar uma certa repetição dos discursos publicitários dos partidos de oposição, nos horários da Justiça eleitoral: geralmente tem sido focados na pessoa do Presidente. Isso é uma estratégia suicida, pois revela uma certa desprogramatização dos conteúdos. E todo mundo sabe que Lula tem, em sua pessoa, uma força de imagem já comprovada, contra o que é melhor não adotar a postura do "bate na cara". Assim, o segundo movimento das peças tem um poder de fogo que não será muito facil para a oposição superar. A seguir, falarei do terceiro movimento, adiantando que ele tem direta relação com o Partido do Presidente. Há um movimento muito interessante nesse campo.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

A Estratégia Política do Presidente: Primeiro Movimento

A menos que aconteça uma catástrofe política que se abata sobre o Palácio do Planalto, o Presidente Lula definitivamente será candidato. Mas só se declarará na última hora, dependendo do sucesso de uma estratégia que está devidamente definida por ele mesmo.
Os movimentos das peças desse xadrez são absolutamente previsíveis e, do ponto de vista de método, podem ser consideradas infalíveis se a oposição não usar de máxima inteligência para dificultá-lo.
O primeiro movimento é relacionado a obras de grande envergadura e manejo orçamentário. Para isso o Governo tem dinheiro em caixa, conseguido às custas de um arrocho fiscal e de um alivio nas contas. A falta de pressões externas, com a quitação de dívidas junto a credores internacionais, dará ao governo gordura de sobra para por em ação um programa de investimentos em infra-estrutura. Afinal são 28 bilhões de reais que tem para gastar. O programa de recuperação de estradas federais tem recursos que não se encontram na suma acima, pois trata-se de dotação conseguida mediante acordo com o FMI para o Programa de Projeto Piloto de Investimento Público. Isso irrita a oposição porque ela não tem esse caixa, e se tentar usar caixa dois na campanha, com as orelhas e olhos de todo mundo alertas, ficará desmoralizada. Dinheiro para contemplar reivindicações dos setores sociais existe e será administrado com políticas compensatórias, especialmente junto aos setores da agricultura familiar e movimento dos sem terra. Outra grande arma do Governo é o manejo do salário mínimo. Com a inflação no patamar inferior a 5% em 2005, o Governo já jogou com a possibilidade de oferecer um aumento real bem mais substancial do que no ano passado, mantendo as centrais sindicais na mesa de negociação e retirando da oposição a pólvora que teve no embate anterior. O Programa Bolsa Família tem proposta orçamentária 12,18% superior ao ano passado, o que representará o alcance dos segmentos situados na linha de pobreza. Com tanto combustível assim, o Governo joga para a oposição a batata quente de criticá-lo e de se indispor com os segmentos marginalizados. Olhando assim, parece que Lula está adotando medidas de eficácia estrutural, o que não é verdade. Mas a oposição não tem poder de fogo para demonstrar o contrário, mesmo porque os segmentos mais identificados com políticas sociais não dariam respaldo politico a esse discurso. Portanto, o primeiro movimento de Lula é inteligente e representa um grande desafio para quem quiser enfrentá-lo. Mas esse é apenas o primeiro. Há outros três que analisarei nos próximos artigos. Mas já darei uma dica: será o do marketing. Aguardem.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O que nos espera 2006

Com certeza o ano que acabou poderia ser considerado como um dos mais dificeis para o nosso País. Especialmente para aqueles que sempre acreditaram no crescimento da maturidade democrática brasileira. As estatísticas econômicas, a despeito do esforço de representantes setoriais, revelaram um freio terrivel na economia. Mesmo a euforia com o comércio externo não esconde a decepção com os índices de crescimento no campo da agricultura, indústria e serviços. O único setor que passou ao largo da crise foi o financeiro, com os lucros bilionários das instituições financeiras.
No plano dos direitos humanos vimos crescer o clamor dos movimentos sociais organizados com relação ao descaso do Governo com relação ao meio ambiente, segmentos étnicos - especialmente o indígena - e a triste situação no campo, com o recrudescimento da violência.
No plano político, assistimos por mais de seis meses o espetáculo deprimente das CPIs e da exposição pública das maracutaias praticadas pelos corredores e gabinetes dos poderes Executivo e Legislativo.
Vimos também a queda vertiginosa da confiança do povo brasileiro no Governo Lula. Para alguns analistas, Lula perdeu mais de 20 milhões de eleitores - dos 53 milhões que o elegeram - desde que assumiu a Presidência.
Mas 2006 está ai. E vamos vivê-lo com a esperança sempre renovada de continuar a construção de uma cidadania plena nesse País.
Em toda a virada de ano costuma-se ouvir promessas. O próprio Presidente afirmou ao Fantástico que esse será o ano do povo brasileiro. É bom nos prevenirmos contra promessas que soam mais como discurso de campanha.
Qualquer sucesso na construção democrática não depende de discursos bem intencionados até, mas de um esforço cidadão coletivo.
A sociedade brasileira tem a obrigação de fazer de 2006 um ano de séria avaliação de suas instituições. Temos muitos desafios pela frente, a começar pelos políticos que precisamos retirar de onde nunca podiam ter estado. As eleições que teremos pela frente será uma ocasião impar para removermos de vez a falsa esperança que brota da boca de quem so pensa em manter-se às custas do dinheiro público. Mas, acima de tudo, é preciso construir uma rede de cidadania ativa. Que cobre do poder público a aplicação de políticas que realmente atendam as necessidades de nosso povo.
Que venha 2006 com todos os desafios que nos estão propostos. Precisamos avançar na direção de uma sociedade que não dependa de "salvadores" ou de "messias" mas de cidadãos e cidadãs que não transferem suas responsabilidades a ninguém.