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A erudição e seus riscos....Bento XVI e os mulçumanos!

A erudição do teólogo vitimou o Bispo de Roma de forma inequívoca. Diante de uma platéia acostumada a ouvir - mesmo em tom conservador como lhe é mister - suas falas cheias de uma clareza quase impecável de argumentos, Bento XVI jamais imaginou que pudesse meter-se numa encrenca internacional nunca vista antes envolvendo um papa.
Ele foi traído pelo "ego" da intelectualidade que o fez experimentar uma "amnésia" de apenas alguns segundos, e que lhe custou e custará ainda muito desgaste.
Mas esse episódio pode revelar um fato completamente novo para a história do magistério de Roma. Pela primeira vez, um Papa é forçado a admitir que comete erros. Não falo aqui no erro teológico-doutrinal. Mas no erro político. No campo da teologia, não se pode trabalhar com verdades absolutas e pretensamente infalíveis ad eternum. A teologia sempre está sujeita a transformações que os tempos e as culturas lhe impõem. A própria Igreja Católica Romana tem atestado isso através de diferentes momentos e re-leituras, mesmo com a continuidade de alguns pilares "sagrados", mas nem por isso eternos.
O erro do Papa foi político. Faltou-lhe, nesse momento "amnético", a percepção de que sua audiência não era aquela imediata da Universidade. A sua audiência era o Mundo.
Num mundo marcado pelo incandescente conflito entre Ocidente e o Islã, cada um com suas razões e armas, o Papa teve a infelicidade de atirar ainda mais lenha na fogueira.
Isso não justifica as manifestações violentas que vem sendo manipuladas por extremistas que agora encontram a falsa justificativa para atacar e ameaçar os cristãos, incluindo o próprio Papa.
As lideranças mulçumanas, também elas eruditas, devem desempenhar um importante papel nesse processo de suspensão de hostilidades. Porque se aos olhos de alguns a história revelou ações em desacordo com os ensinos de Jesus por parte de muitos cristãos - tome-se o exemplo das Cruzadas - também os ensinos de Maomé foram desrespeitados por muitos mulçumanos.
Seria muito oportuno que as lideranças cristãs e mulçumanas do mundo pudessem aproveitar essa crise e iniciarem um verdadeiro diálogo de religiões, considerando-se em mútuo respeito, e percebendo-se que, para além dos discursos e da erudição teológica, existe uma humanidade que precisa se reconhecer como interdependente.
O Islã, como o Cristianismo, como outras ricas expressões de sincera religiosidade, são os diversos "óculos" com que os míopes do mundo tentam enxergar seu Deus. O abandono de toda pretenção de erudição seria talvez o primeiro passo para o início dessa reconciliação. A erudição é bonita, mas se não lhe pomos sensibilidade, ela causa estragos. Fica a lição!

Comentários

Anônimo disse…
Excelente análise. Divulguei-a para vários grupos e amigos da Internet.
Pulika

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