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CPI do fim do mundo e debaixo dos lençóis

Entre marchas e contra-marchas, a CPI dos Bingos, chamada de fim do mundo, protagonizou semana passada o que pode se tornar um embate digno de um filme de espionagem. Saído do anonimato, como um desses personagens populares, capazes de encarnar certos paradigmas tipo Davi e Golias, o caseiro Francenildo ocupou a midia como responsável por desmentir um dos mais poderosos homens da República. Baseado em um currículo de simplicidade, tornou-se de repente o grande personagem da oposição para manter o fogo cerrado sobre o Governo. Suas declarações, incluindo detalhes picantes, ao gosto de um não assumido voyeurismo de senadores, deputados, e jornalistas, pareciam dotadas de uma força capaz de desmoronar a até agora confiável imagem do ministro Palloci.
Não tenho certeza se as informações do caseiro realmente poderão ser úteis no desvendamento de qualquer vínculo entre o ministro e o que a CPI dos Bingos tenta investigar. Mas com certeza, o que poderia ser dito, se não fosse a liminar que calou o caseiro, poderia expor de forma quase pornográfica a vida privada de algumas pessoas da vida republicana. E, se isso vier a acontecer, tá na hora de tirar as crianças da frente da televisão (como costuma dizer Noblat em seu blog).
Se for assim, vão ter que chamar a Jeany para desvendar os mistérios das muitas festas particulares que muitos políticos de Brasilia promoveram com a competente assessoria de eventos de suas pupilas. Aliás, se fala de um dossiê que estaria na mão de governistas, pronto para mostrar algumas façanhas nada parlamentares dos colegas da oposição.
E ai me pergunto: o Brasil merece isso? Com certeza que não.
O jogo de forças entre Governo e Oposição já estrapolou qualquer limite de legalidade.
O caseiro, na sua pureza de homem simples, abriu espaço para o cometimento de um crime. E lá se descobriu, de forma criminosa, que ele de repente é um beneficiário de um pai que não é pai, e que de repente moveu-se de compaixão financeira e lhe fez depósitos generosos em conta corrente. E dinheiro em espécie. Muito estranho isso.
Ao mesmo tempo que um homem do povo é devassado em sua privacidade, os ricos poderosos tem seus sigilos bancários preservados por medidas judiciais. Literalmente dois pesos e duas medidas. O Governo preserva uns e expõe outros.
Do jeito que vai indo a coisa, teremos lances de espionagem financeira e moral contra todo mundo e ai a CPI vai perder a autoridade por não ter claro seu curso e seus limites.
O que a sociedade quer e precisa saber é se houve crime de responsabilidade por parte de agentes públicos. E crimes de responsabilidade se apuram em relações objetivas de poder entre agentes do poder público e individuos ou organizações sobre quem se tem suspeitas de ilícito. Não constam indicios objetivos de que o Ministro Palloci tenha tido qualquer negociação com contraventores de Bingo. E esse é o objeto jurídico da CPI.
Toda a polêmica reside em o Ministro ter negado que frequentava a casa do Lago Sul. E nenhum dispositivo legal o obriga a revelar detalhes de sua vida privada, frequentando local que lhe pareça correto. Assim sendo, toda festinha ou toda casa do Lago Sul ou Norte passa a ser suspeita de prática delituosa. É a abolição completa do direito à vida privada.
Ou a CPI deixa de se tornar um instrumento político contra o Governo, ou teremos marchas e contra-marchas de um lamaçal que revelará não o que seja realmente relevante, mas até a intimidade debaixo de lençóis.

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