Arrogância e risco

A cobertura da imprensa nacional e internacional com relação aos protestos violentos dos mulçumanos contra a caricaturização de sua religião me passa a idéia de que vivemos em um mundo inexoravelmente dividido pelo choque de civilizações.
A leitura preconceituosa que se faz dos adeptos de Maomé , atribuindo a eles o barbarismo, consiste numa cegueira própria da inflação do ego da chamada civilização ocidental. Hoje, para aguçar ainda mais o conflito, um jornal francês publicou novamente as charges e ainda crescentou outra sob o argumento da liberdade de expressão. Uma petulância, justificada até com argumentos iluministas, e contraditoriamente defendo a superação da intolerância, nesse caso, atribuída aos mulçumanos.
Arrogantemente, se desrespeita costumes e valores religiosos, tão caros e tão essencialmente ligados ao sentimento mais profundo dos fiéis do Islã. Todas as religiões tem seus objetos e seres sagrados, aos quais nos ligamos e devotamos reverência. Assim são os cristãos, os budistas, os judeus e os mulçumanos, entre outros.
Mas a hybris (termo grego para denotar a presunção espiritual) parece ter dominado não somente o mundo da política, mas também a cabeça excessivamente laica dos meios de comunicação.
Não basta os norte-americanos jogarem o Alcorão em privadas para agredir moralmente os prisioneiros mulçumanos em Guantânamo. Não basta rotular as culturas que não se regem pelos principios da democracia ocidental como bárbaras. Não basta atribuir ao mundo mulçumano a pecha de terrorista. Não basta defender a pseudo-liberdade ocidental contra as teocracias orientais. Nada basta aos que se consideram arautos da modernidade e da racionalidade!
Isso é pura hybris, que na mitologia grega não fica sem castigo. O que querem esses irresponsáveis? O caos? E quem pagará por isso? Certamente serão muitos inocentes que correm o risco de serem feridos ou mortos por turbas cegas de ódio.
Em nenhum lugar do Evangelho Jesus recomenda a humilhação de ninguém. Pelo contrário, sempre debateu e respeitou as diferenças com amor diante daqueles que o injuriavam.
Me surpreende ainda mais o silêncio dos líderes cristãos europeus e do mundo sobre o tema. Parece que o assunto está restrito apenas a esfera do político, o que não é verdade. O ódio do mundo mulçumano contra o Ocidente tem uma razão também religiosa. O Cristianismo secularizado e comprometido com um projeto de hegemonia cultural cometeu muitos crimes contra o mundo do Islã. Por isso, essa é uma ocasião especial para se dirigir uma palavra ao Islã e dizer que a Igreja Cristã não concorda com os atos irresponsáveis de jornalistas e órgão de imprensa, ávidos por lucro e fama.
Quando ouviremos alguma palavra sobre isso? Ela virá? Espero que não demore muito porque as massas - quando dominadas por sentimentos atávicos - se tornam surdas, cegas e devastadoras!

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