A Estratégia Política do Presidente: Terceiro Movimento

O Presidente conhece a ascendência que tem sobre seu partido. Construiu cada etapa de sua formação e conhece dada um dos companheiros e companheiras que ocuparam as instâncias dirigentes. Conhece inclusive as fraquezas e projetos de poder compartilhados desde as reuniões mais formais até aquelas em torno de uma mesa de bar, inspirados por uma boa cachaça. Muito da política se constrói em torno de copos sorvidos à larga. Dessa cumplicidade surgiu a luta política do PT, construída ao lado dos movimentos sociais e do processo de redemocratização do País. E assim foi nos embates pela Presidência nas três mal sucedidas eleições. A vitória de 2002 constituiu a glória do partido, mas igualmente seu grande teste ético. O golpe sofrido com a descoberta das negociatas e do valerioduto fez o partido sangrar. O Presidente já deu a tônica na entrevista ao Fantástico: o PT vai sangrar para poder renascer. Como interpretar essa frase? Lula mantém o PT refém de sua decisão de se candidatar porque sabe que uma candidatura petista à esquerda dele próprio não conseguirá atrair apoio junto à opinião pública. O dois movimentos estratégicos que relatei anteriormente deixarão a nova cúpula partidária sem outra alternativa a não ser contar com ele para uma reeleição. Mesmo tendo um perfil mais à esquerda do que a cúpula anterior, ela não vai arriscar descolar-se da pessoa de Lula. Ao adiar a decisão de se candidatar, Lula esperará que os expurgos políticos dos parlamentares envolvidos no mensalão "limpem" o PT para torná-lo mais palatável à opinião pública. Como ninguém tem nada de concreto contra a atuação do Presidente nesse lamaçal todo, os culpados serão responsabilizados. A única coisa de que podem acusá-lo é de ter sido conivente, mas para isso existe a estratégia de mostrar que um Presidente não pode ser onisciente. Habilmente Lula se distanciou de companheiros muito próximos, dando a entender que foi traído. Na verdade, o argumento de traição misteriosa - onde o traido não revela o traidor - esconde um compromisso tácito entre as partes. E as partes precisam uma da outra. O PT não tem alternativa e apoiará o Presidente, porque ele se tornou maior que o partido. Seu movimento estratégico está absolutamente seguro nesse território. O próximo movimento a que me dedicarei é com relação à oposição. Aguardem.

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