sexta-feira, dezembro 16, 2005

Indigenas e indigentes

Lastimável a ação da Polícia Federal na expulsão de cerca de 500 indígenas no Mato Grosso do Sul na manhã de ontem. Numa ação que seria de se esperar fosse feita contra o crime organizado, inclusive com agressão a repórteres, a PF retirou os indígenas Guarani Kaiowá de uma área já demarcada por decreto presidencial, mas embargada pelo Supremo Tribunal Federal.
Essa ação é apenas um dos retratos tristes de como a política indigenista tem sido tratada nesse Pais. O Governo Lula tem sido omisso no trato dos direitos dos indígenas e as ações levadas a efeito tem representado um retrocesso absolutamente injustificável. Por que? Talvez pelo fato de sua necessidade de contemplar os interesses do agronegócio, como um dos pilares de sua política econômica. Ou então porque o campo indigena não dispõe de um lobby tão eficaz quanto o de outros segmentos étnicos. Os intelectuais da esquerda brasileira, preocupados talvez com a macro política, não tem apoiado esses nossos irmãos com tanta veemência como o fazem com outros movimentos sociais.
Mas a raiz do problema está realmente posta no poder político do agro-negócio. Os indígenas brasileiros se tornam, por sua inserção geográfica, os verdadeiros obstáculos para quem deseja expandir a fronteira agrícola. E como são mais frágeis em sua articulação, têm sofrido derrotas constantes.
Mesmo em alguns segmentos da sociedade organizada, é visivel o processo de escamoteamento da questão indígena, ao contrário do poderoso lobby da comunidade afro-descendente.
Tenho sentido em alguns fóruns, inclusive do campo democrático popular, que quando se fala das questões raciais, a questão indígena não recebe a mesma atenção que outros segmentos.
Espero que esse quadro mude. E que esse Governo paute com mais determinação os direitos dos indígenas. Fica meu protesto por mais essa ação desrespeitosa e que depõe contra um Governo que se pretende popular!

terça-feira, dezembro 13, 2005

Tributo a Tookie

Até quando as sociedades chamadas de modernas vão manter a pena de morte como instrumento legítimo para enfrentar a criminalidade? Há exatos dois posts atrás, defendi a justiça para os assassinos de Dorothy Stang. E a sentença dos executores foi prolatada, estabelecendo-se o princípio de que, quando se cometem crimes tão perversos, como os praticados contra a vida das pessoas, a restrição da liberdade constitui pena adequada para garantir o respeito à integridade dos cidadãos e cidadãs!
No entanto, alguns sistemas penais consideram a pena capital como instrumento legítimo, cometendo o mesmo crime de eliminação da vida - nesse caso dos condenados - como uma verdadeira lei de Talião.
A contradição desse princípio é visível e por mais que tenhamos avançado em termos de civilização, continuam a ocorrer execuções de criminosos, seja por ação policial pura e simples - tão comum em nosso País - seja pela aplicação da pena de morte.
O caso de Tookie Williams é paradigmático nesse sentido. Condenado há 24 anos , esse ex-famoso chefe de "gangs" dedicou sua vida a purgar os crimes cometidos e a construir uma nova vida. Indicado ao Nobel da Paz por seus escritos para jovens adolescentes, desestimulando-os a seguir um caminho sem volta no crime, Tookie ganhou a simpatia das organizações civis americanas e do mundo inteiro. Sua transformação não foi capaz de sensibilizar o governo e o judiciário dos EUA. Após longos e sucessivos pedidos de revisão da pena e até o pedido final de clemência feito ao governador da Califórnia, a decisão de executá-lo com uma injeção letal foi mantida. E nessa madrugada sua vida foi ceifada.
Aqui deixo o meu tributo a ele, por ser ele um exemplo de que as transformações são possiveis. Como cristão, acredito na 'metanóia'.
Me uno aqui a todas as pessoas que condenam veementemente a pena de morte como instrumento penal legítmo. Os argumentos contra ela são fartos e incontestáveis. Mas para alguns, o simplismo da lei de Talião é mais fácil, exige menos da pedagogia de vida e alivia o Estado de seus deveres para com a vida daqueles que lhe ameaçam.
Espero firmemente que num futuro próximo a pena capital seja definitivamente abolida dos chamados Estados civilizados.
Tookie, onde você está agora, com certeza te dá uma compreensão de como somos falhos em acreditar nas pessoas e na mudança de vida delas. Perdoe-nos por isso!!