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Estratégia Equivocada

Dentre as muitas virtudes que o Presidente Lula tem e que contribuiram para a vitória eleitoral de 2002 está a de conseguir discursar com franqueza e simplicidade.
No seu primeiro ano de governo houveram até vozes que se ergueram para pedir que ele falasse menos e demonstrasse mais eficácia nas intenções.
Em meio à crise política que se alastra a cada dia e vai, a passos largos, consumindo a popularidade do governo, o Presidente manteve até a viagem a Paris um discurso públicamente aceitável.
A entrevista de Paris e os discursos subsequentes revelam que a estratégia mudou. E é uma estratégia arriscada e perigosa para o próprio Presidente.
Primeiro, ele assume o descolamento radical do seu partido. Embalado pela opinião pública ainda favorável a sua pessoa, Lula entendeu que deveria aumentar ainda mais a distância entre ele e seus companheiros de partido, lançando-os à incomoda posição de réus abandonados à própria sorte. Essa estratégia, até certo ponto compreensivel, pela ausência até o momento de sua responsabilidade pessoal nas alegações criminosas, aponta para um sentimento de deslealdade para com a sigla. Pois o PT é maior do que os quadros que hoje estão sob suspeita.
Só que últimamente o Presidente assumiu um discurso ainda mais radical: acusa as elites de querer desestabilizá-lo. Essa estratégia é igualmente perigosa porque representa uma busca de apoio junto a segmentos populares que sua própria política econômica não tem conseguido atender a contento.
Na verdade, levando em conta a história política do Brasil, essa estratégia nunca deu certo. Nenhum governante em dificuldades de gerenciamento político com as elites conseguiu sustentar-se efetivamente nas massas. Esse populismo sempre foi um ensaio pouco eficiente no Brasil.
Se o caminho discursivo continuar nesse tom, teremos um grande risco de o Governo de Lula gerar muito mais que uma crise política. O descontentamento das chamadas elites será motivo para sobressaltos que o próprio Presidente quiz evitar quando assumiu o Governo. A governabilidade estará ameaçada.
A culpa da atual crise não é definitivamente das elites. Ela é resultado de ações pouco adequadas a gestores públicos que se encantaram com o poder e com o dinheiro. É lógico que alguns segmentos descontentes com a chegada de Lula ao poder se aproveitam para desgastá-lo. Mas se a atitude do Presidente for a de apurar e punir todos os culpados, ainda que companheiros de partido, ganhará muito mais legitimidade. Mostrará coerência com sua biografia e certamente contribuirá para purificar seu partido, purificar a viciada máquina estatal e continuará em condições de realmente realizar a inclusão das massas no processo econômico nacional.

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