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Superávit Primário e Conflitos no campo

A recente publicação do Relatório da CPT sobre conflitos no campo traz à tona uma questão que nos preocupa fortemente. A despeito da redução do número de mortes resultados de conflitos, o Relatório aponta para o crescimento das tensões e a falta de priorização do Governo Federal no enfrentamento da questão agrária. O número de despejos de familias aumentou. O assentamento de familias, estabilizando suas vidas e normalizando a produção de alimentos foi muito abaixo daquilo que o próprio governo planejou. O corte de 60% das verbas destinadas a Reforma Agrária, em virtude das metas de superávit primário acertadas com o FMI, coloca em destaque a prioridade de ajustes macro-econômicos.
Tudo isso revela a incapacidade política do governo de lidar com os interesses opostos entre agronegócio e agricultura familiar. Parece que, no jogo de forças entre estas duas vertentes, não se consegue esconder a opção pelo setor que tem trazido divisas através da expansão das exportações. Mas será que necessariamente os recursos do agronegócio são tão excludentes do ajuste agrário imprescindível ao País, como fator de redução das tensões no campo?
Quando analisava o primeiro ano do Governo Lula, tive a oportunidade de dizer que as prioridades para 2004 eram o emprego e a reforma agrária. A recuperação da atividade econômica gerou quase 2 milhões de postos de trabalho, e, desde que a política de juros não estrangule mais o setor produtivo, a economia seguirá um curso mais ou menos crescente, aliviando assim o desemprego. Mas, com relação à Reforma Agrária, parece que não se avança centímetro algum. O Governo parece agir como quem espera que as pressões cresçam para poder liberar os recursos e mobilizar a máquina na direção do ajuste agrário. Nem mesmo as mortes recentes - a exemplo da irmã Dorothy - ampliaram consideravelmente as ações de assentamento, investimento e processos de desapropriação de terras improdutivas.
Resta-nos esperar os futuros desdobramentos de uma tensão que só aumenta e que ainda poderá fazer muitas vítimas, geralmente as mais fracas. O Governo Lula, em vias de buscar uma nova legitimação política nas urnas, corre o risco de perder um momento histórico de fazer a redistribuição fundiária brasileira, dentro da lei, mas sem tergiversar com os interesses dos que não querem ver seus interesses contrariados!
Enquanto as metas de súperávit primário forem um dogma econômico para o governo não teremos outra alternativa. Reforma Agrária exige recursos. Os recursos existem. A capacidade de poupança do País está demonstrada. Mas de que adianta poupar à custa do risco de se ter mais instabilidade social?

Comentários

Juliana disse…
Xico!!! Este é só para testar. Que bom que você criou um blog! É bom saber que tem mais vida inteligente na blogosfera! Vou ler todos os seus posts com mais tranquilidade para comentar melhor.

Beijos e seja bem-vindo

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